quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O carro da discórdia

Meus caros, a censura que sofre a Escola de Samba Unidos do Viradouro é absurda, visto que a agremiação foi obrigada a não exibir um carro alegórico alusivo as vitimas do holocausto e um boneco retratando, o pusilânime Adolf Hitler.A proibição é resultante de um pedido de liminar expedido pela justiça a pedido da Federação Israelita do Rio de Janeiro – FIERJ. Em despacho a juíza Juliana Kalichsztein dá a seguinte justificativa, “Um evento de tal magnitude apesar de, em sua essência, pretender passar alegria, descontração e alertar a população sobre fatos importantes que ocorreram e ocorrem através dos anos, não deve ser utilizado como ferramenta de culto ao ódio, qualquer forma de racismo, além da clara banalização dos eventos bárbaros e injustificados praticados contra as minorias, especialmente cerca de seis milhões de judeus (diga-se, muitos ainda vivos), e liderados por figura execrável chamada Adolf Hitler", concluiu juíza no despacho.
Em nota oficial, a FIERJ alega que o desfile vai banalizar o holocausto e com isso desrespeitar a memória de todas as vitimas de um dos acontecimentos mais perturbadores da humanidade que inclui também alguns brasileiros. Se a justiça determina que o carro alegórico da Viradouro deva ser retirado por causar na sociedade judaica uma repulsa por todos os horrores que ele representa, já que segundo ela, as feridas da guerra ainda estarão vivas em muitos judeus, vale lembrar que vivemos em uma sociedade democrática. Fazer valer a democracia não é apenas “tomar partido” em favor do grupo ao qual pertencemos, mas sim, defender o ser humano acima de tudo, seja qual for à situação. Considerando que a Sociedade Israelita faz parte da sociedade brasileira, assim como também fazem parte os índios, os negros, árabes, orientais e tantas outras etnias que formam nosso povo, causa estranheza que a justiça, e principalmente a Sociedade Israelita, nunca tenha se pronunciado contra enredos que durante décadas retrataram de forma histórica, e não através de apologias, a escravidão brasileira, cujo tema, ainda para nós brasileiros possui feridas, que até hoje ainda não cicatrizaram, assim como o próprio holocausto. Se formos puxar os temas polêmicos abordados em outros carnavais podemos nos lembrar de alguns que foram marcantes e inesquecíveis.
Em 1976, a Escola de Samba Em Cima da Hora fez um enredo alusivo à Guerra de Canudos. A história dos jagunços comandados por Antônio Conselheiro que lutaram até o final em uma luta sangrenta e sem precedentes contra o Exército, ainda é uma macula na memória brasileira, assim como foi a Revolta da Chibata liderada pelo marinheiro Antônio Cândido, contada e cantada pela União da Ilha nos anos 80, sem falar também em personagens como Zumbi. Escrava Anastácia, Chica da Silva, Chico Rei, Elis Regina, Garrincha - o herói errante que desfilou bêbado na Mangueira em 1979 - e uma infinidade de heróis. Este ano, Dom JoãoVI é homenageado por várias escolas em comemoração a chegada da família real há 200 anos. O monarca sempre foi pintado como um covarde e foi chacoteado em diversas produções teatrais, televisivas e cinematográficas - Carlota Joaquina, dirigido por Carla Camurati - e até pela própria história, e, nem por isso, seus descendentes promoveram protestos e ações judiciais. O holocausto já foi tema de várias produções e é idolatrado pelo cinema americano: Lista de Shindler, O Pianista entre tantas produções que ganharam muito dinheiro abordando o maior genocído da história. Lamentavelmente a comunidade judaica carioca tenta interferir com censura na mais democrática forma de expressão da sociedade brasileira, que é o carnaval.
Censura essa injustificada, já que a escola de samba tenta passar uma mensagem de alerta, e não incitar o ódio. Nunca o carnaval carioca incitou o acirramento entre raças e ideologias, sempre retratou a comunhão dos povos que fizeram e fazem este país, jamais o desfile das escolas de samba tripudiou sobre a memória de qualquer país, herói ou raça. Será que a comunidade não se sente integrada a nossa cultura e costumes?

Obs: este artigo teve a colaboração do jornalista Rodrigo Gomes.
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