segunda-feira, 3 de março de 2008

Uma singela homenagem

Meus caros, o rádio perdeu um dos maiores e melhores comunicadores da sua história, Haroldo de Andrade. Reproduzo aqui, um artigo escrito na Tribuna da Imprensa pelo jornalista Pedro do Couto. Cresci ouvindo todas as manhãs um programa que me deu o entendimento básico do que é cidadania e ser cidadão. Não tive palavras para expressar meu sentimento, mas ao ler este texto achei por bem disponibilizá-lo aqui no Lobotomia.

Adeus ao grande Haroldo de Andrade


Por Pedro do Couto


Setenta e três anos depois de ter nascido no Paraná e de uma passagem absolutamente brilhante e luminosa no rádio que tanto amou, desenvolveu e dignificou, por mais de cinco décadas, o grande Haroldo de Andrade deixou de viver no final da tarde de sábado. Sem dúvida, o maior comunicador da radiofonia brasileira de todos os tempos. Incomparável como apresentador, coordenador, selecionador de matérias, descobridor de talentos, além de, ao mesmo tempo, alma de repórter e comentarista.

De todos os assuntos. Sintonizar seu programa na Rádio Globo, no qual foi líder absolutíssimo de audiência durante 42 anos, era ouvir informações e opiniões sobre os temas mais importantes que surgiam no dia-a-dia. Ninguém, nem ele, tampouco os debatedores que escalava, pode acertar sempre. Ainda mais o rádio, espaço que não dá margem a correções de palavras e pensamentos. Ao contrário do que acontece nos jornais.

Ele começou sua carreira insuperável - me contou, éramos muito amigos - numa emissora de Curitiba em dia de tempestade. Retido pelas chuvas que inundaram a cidade, o principal locutor não pôde chegar a tempo. Isso lá por volta de 1949. Ele entrou no lugar pela mão do destino e do microfone. Não saiu até o final de sua vida. De Curitiba, veio para a antiga Rádio Mauá. Daí saltou para a Globo.

Sucesso absoluto em todos os sentidos. Ficou na Globo, como disse o "Jornal nacional", durante 42 anos. Em dezembro de 2001, numa atitude incompreensível, foi afastado. Um desastre de audiência para a Globo, muito ruim para ele, Haroldo, péssimo para seus milhões de ouvintes. Eu entre eles, admirador de seu extraordinário talento. No rádio brasileiro, duas pessoas marcaram de forma indelével sua passagem: Haroldo de Andrade e Ari Barroso. Ari, claro, foi maior do que ele como artista. Mas Haroldo de Andrade foi ainda maior como radialista e jornalista.

Tive a honra de ter participado de sua mesa de debates ao longo de dezessete anos seguidos. Assisti de perto sua atuação, sou testemunha de sua integridade, de seu senso de justiça, de sua capacidade seletiva, de sua noção de conteúdo jornalístico, com o aproveitamento de espaço e destaque dos temas. Testemunhei de perto a força de sua personalidade.

Um dia, quando meu saudoso amigo Paulo Montenegro entregou a ele uma placa que o Ibope mandou fazer por sua liderança de audiência por mais de 30 anos, naquele momento, Paulo pediu-me que falasse em nome dele e do instituto. Tive a oportunidade de acentuar que, em matéria de Haroldo de Andrade, a questão não era só de audiência. Mas igualmente de intensidade dela. Ele tinha mais de um milhão e duzentos mil ouvintes, todos os dias, só no Estado do Rio de Janeiro.

Entrava às nove horas, mas bem antes disso seu público já o estava aguardando na sintonia, na emoção, na devoção. Não se tratava apenas de ouvintes, mas de multidões que diariamente esperavam por ele, contavam com ele, admiravam-no intensamente. Havia uma relação de afeto. Os que o acompanhavam viviam na aventura dele a sua própria aventura. Momento em que de forma anônima, mas concretamente, se tornavam seus personagens.

A seu lado, no microfone, vivia eu momentos importantes de minha vida de jornalista. O seu palco diário, duas vezes por semana, era também o meu. Tive o direito de falar, opinar, informar, me sentir, junto de amigos queridos, dentro de um elenco diversificado e versátil, espécie de lente dos fatos mais importantes que aconteciam.

Em sua trajetória luminosa, Haroldo de Andrade iluminou a vida brasileira. Interpretou seu pulsar, suas angústias, seus anseios, divulgou as omissões dos governantes - são tantas -, condenou as falsificações e as injustiças.

Representou brilhantemente, da forma mais autêntica e independente, a opinião pública. Foi absurdamente afastado da Globo, no final de 2001, como disse no início deste artigo. Ficou quatro anos fora do ar, lutando para criar uma emissora com seu próprio nome. Conseguiu concretizar seu projeto.

A Rádio Haroldo de Andrade aí está, com sua tradicional mesa de debates. Vai ficar para sempre, seja qual for seu destino, na história do rádio e não só na história radiofônica, mas sobretudo na história da comunicação brasileira. Nas mãos e na voz inconfundível de Haroldo, ela viveu momentos altíssimos de liberdade, de compromisso público, de democracia. Todas as correntes falaram em seu programa.

Artistas - tantos e diariamente - disputavam ou ansiavam por um convite seu. E ele abriu seu programa a todos. Com muita emoção, e no meio de algumas lágrimas, dirijo meu adeus ao grande Haroldo de Andrade. Até sempre, amigo. A minha admiração eu junto agora à admiração de milhões de ouvintes que sempre ligaram nervosamente o dial à sua espera e lamentavam quando, ao meio-dia, seu programa terminava. Maior consagração do que esta ninguém poderá obter. Assim na terra como no céu, para onde você foi agora.

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