quinta-feira, 29 de maio de 2008

Caos no trânsito: a publicidade também tem uma parcela de culpa


Meus caros, a última semana ficou marcada por uma série de incidentes e acidentes de trânsito. São jovens que morrem na volta de uma noitada, imprudência nas estradas e violência ensandecida de alguns motoristas. Basta lembrar o fato ocorrido no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, envolvendo um cidadão que com uma barra de ferro quase matou um pedestre, por este ter reclamado de um avanço de semáforo.

A educação no trânsito é um tema por demais debatido há tempos pela mídia. São campanhas de conscientização que infelizmente nunca dão resultados, basta comprovar que a cada ano aumenta o número de mortos e acidentes motivados pela violência no trânsito. A questão que precisa ser relevada é que a concepção de cidades e de planejamento urbano no Brasil vem de uma lógica na qual o carro é o principal ente material.

Ao longo dos anos, com o crescimento das cidades, a ocupação do espaço público foi feita a partir da possibilidade de passagem de automóveis. É claro e inegável que o carro foi responsável pelo desenvolvimento e integração de várias cidades e regiões não só do Brasil, mas do mundo todo. Porém, a questão que começa a ser levantada é de termos chegado a um colapso total das vias urbanas.

O excesso de carros, a falta de educação, imprudência e impunidade formam um conjunto de fatores negativos que são relacionados ao automóvel. Desde os primórdios do Séc. XX, o carro é um dos produtos mais atraentes do mercado publicitário. A indústria automobilística foi responsável pelo desenvolvimento de vários conceitos mercadológicos aplicados a publicidade. Isso se deu principalmente pelo chamado “american way of life”, em que a liberdade era conquistada a partir da aquisição de um carro.

A propaganda no mundo cresceu e se desenvolveu a partir dessa retórica consumista americana, que foi amplamente aplicada aqui no Brasil. O problema é que o homem como ser social descobriu que ter carro não significa necessariamente ter uma boa qualidade de vida, São Paulo é a maior prova disso...

Hoje, o preço que se paga pelo desenvolvimento e crescimento econômico que o Brasil e o mundo vivem está especificamente no caos urbano motivado pelo grande número de carros circulando nas cidades. Aqui na “Terra Brasilis”, parafraseando o nosso mandatário-mor, “nunca neste país se vendeu tanto carro quanto se vende atualmente”. A indústria automobilística brasileira bate recordes de vendas. Existe uma facilidade descomunal para aquisição de carros com financiamentos feitos em longo prazo com taxas de juros abaixo do mercado. O mercado publicitário a reboque obviamente cresce e agradece...

A questão é que o automóvel é na verdade um bem privado. Foi criado e é usado para uma finalidade individual, mas que é utilizado num espaço público. Em tese, na lógica do bem comum, o privado não deve prevalecer sobre o público, pois como objetivo é o fim da sociedade. Obviamente, esse é um debate que vai suscitar a questão da ética como prática reguladora do convívio social nas cidades.

Não quero dizer que a culpa é da publicidade, o problema passa por uma política de estado e desenvolvimento social e urbano compatível e sustentável, coisas que envolvam desde questões ambientais e educacionais. Mas é primordial, que os comunicólogos que trabalham a publicidade e a propaganda assumam suas responsabilidades, neste processo de venda e consumo do carro como produto, e não, como um fim e filosofia de vida. Para se ter liberdade, não basta necessariamente ter um carro. Liberdade não se compra e nem se faz representar por algo ou uma lata sobre rodas.

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