domingo, 1 de junho de 2008

O Boi de piranha

Meus caros, a respeito da reportagem-denúncia publicada neste domingo (01/06) pelo jornal "O Dia" a jornalista Raquel Faillace assina um artigo que considero importante.

Queridos amigos,

A primeira página do jornal O Dia de hoje faz a classe jornalística e a sociedade em geral parar para pensar a que ponto chega o poder paralelo no Brasil. As autoridades estão cansadas de saber que a milícia tomou conta de favelas cariocas e impõe as leis do cão para trabalhares inocentes obrigados a se submeter às mais cruéis humilhações. Há mais de 20 anos, quando a organização criminosa formada por policiais, agentes penitenciários e de segurança pública em geral, começou a ocupar a favela Rio das Pedras, em Jacarepaguá, nada foi feito para conter o “câncer em metástase”. A expressão foi usada pelo titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas e Inquéritos Especiais (Draco – IE), Cláudio Ferraz, ao se referir aos milicianos, em entrevista ao jornal O Dia.

Em pleno século XXI, ano 2008, uma equipe do jornal O Dia ficou mais de sete horas refém de bandidos do mais alto escalão. Durante duas semanas, uma repórter, um fotógrafo e o motorista alugaram uma casa na favela do Batan, em Realengo, na Zona Oeste da capital carioca, para produzir uma matéria sobre a vida de pessoas que moram em comunidades dominadas pelos grupos clandestinos, “que tem lucro fantástico com a venda de gás de cozinha, do sinal pirata de TV a cabo e da segurança forçada”.

Os jornalistas quando foram descobertos pelos “donos do pedaço”, foram seqüestrados e torturados. Não dá nem para imaginar o que se passa na cabeça de alguém numa situação dessas... O profissional sai para trabalhar e vira alvo de torturas e ameaças de morte. Mas aí é que está o “X” da questão! Que garantia a equipe de jornalistas recebeu da empresa ao partir para uma tarefa perigosa e enigmática como esta? Na verdade, quem está no competitivo mercado de trabalho da comunicação, sabe muito bem qual é a resposta. Paga-se pouco, mão de obra desvalorizada e profissional explorado, sem a menor perspectiva de nada. O importante é publicar a exclusiva na primeira página, custe o que custar. É a lei do capitalismo. E se o repórter não topar se alojar às escondidas numa favela dominada por milicianos vai para rua. Essa é a realidade. Eu saio para fazer matérias e vejo colegas cobrindo tiroteio sem colete a prova de balas, sem o mínimo de segurança, mas com o compromisso de levar para as redações cada detalhe de um confronto policial em alguma favela por aí... É meus caros, funciona assim mesmo. Nós estudamos anos, passamos um ‘perrengue’ para entrar no mercado de trabalho para passar por uma situação dessas. Não tenho mais o que falar.

Aos colegas que lamentavelmente sentiram na pela a “política do terror”, minha sincera solidariedade.

No Rio de Janeiro, 78 comunidades são dominadas por grupos de milícia. Cerca de dois milhões de cariocas vivem um cotidiano de ameaça, medo e leis impostas pelos bandidos.

Vamos ver quanto tempo vai levar para as autoridades pegarem os criminosos do Batan. O governador Sérgio Cabral e o Secretário de Segurança Pública querem “rigor nas investigações”. O caso tomou proporções e comoveu ABI, OAB, Alerj, etc...

Mas cadê a solução ???

Há seis anos o jornalista Tim Lopes morreu num episódio parecido. Mas Lopes não conseguiu ficar para nos contar a história...

Caso Tim Lopes – 2002

2/JUN/2002: este foi o dia da última tentativa de reportagem investigativa do jornalista Tim Lopes da TV Globo. Depois de receber denúncia de exploração sexual de jovens em bailes funks promovidos por traficantes, na Vila Cruzeiro, no complexo da Penha, Tim Lopes foi até lá, na tentativa de esclarecer e publicar o então furo de reportagem. Era a quarta vez que o jornalista tentava apurar a denúncia na favela.

“A morte de Lopes foi confirmada depois da prisão de Fernando Sátiro da Silva, o Frei, e Reinaldo Amaral de Jesus, o Cabê, dois integrantes da quadrilha do traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, um dos líderes do grupo criminoso Comando Vermelho, que detém o poder no Complexo do Alemão. Os depoimentos dos presos indicam que o jornalista pode ter sido identificado pelos traficantes como sendo o autor da reportagem “Feira de Drogas” veiculada pela TV Globo, em agosto de 2001. Na reportagem, Lopes filmou, com uma microcâmera escondida, a venda de drogas nas ruas do morro do Alemão. Depois que sua reportagem foi ar, traficantes foram presos e o negócio foi interrompido por um tempo, causando prejuízos aos narcotraficantes.”

(FONTE: http://www.timlopes.com.br/casotimlopesmobilizatodoopais.htm)

P.S: O "boi de piranha" é uma referência a locomação de gado nas áreas inundadas do pantanal durante a travessia . O 'tocador da boiada' escolhe um boi para distrair as sanguinolhentas piranhas e assim consegue atravessar o rebanho para o outro lado do rio.

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