terça-feira, 2 de setembro de 2008

A Ideologia da Isenção


Meus caros, em colaboração a este blog, o futuro jornalista Luiz Alexandre Oliveira me enviou este post que achei bastante interessante, degustem por favor...


Imparcialidade. Isenção. Compromisso com a verdade. Qualquer um que trabalhe com comunicação ou simplesmente acompanhe com regularidade jornais e revistas está habituado com essas palavras. Qualquer veículo que trabalhe com informação, seja impresso, sonoro, audiovisual ou virtual, utiliza-se delas para definir seus trabalhos. É um dos pilares da profissão de jornalismo dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, em nome de seus fiéis leitores. Ou não?


Uma das primeiras lições que um estudante de jornalismo aprende quando entra no curso de Comunicação Social pode chocar os mais românticos: a imparcialidade não existe. Diferente do que as editorias afirmam, a isenção não é praticada. Não que sua inexistência ocorra por “mal-caratismo” editorial. Ele existe em uma série de casos, claro, mas o real motivo disso ocorrer é que tudo aquilo que produzimos responde a um determinado discurso. Quando não é o compartilhado pelo próprio comunicador é o da linha editorial desse veículo. Ela seria o livro de regras praticadas por ele, que vai dizer que tipo de abordagem deve ser dada as notícias, o que pode ou não ser dito. Estão implicados na linha editorial quem é o público a quem eles se dirigem, quem são seus anunciantes e parceiros e qual corrente política e ideológica é seguida. Com tantas interferências externas, fica complicado até para o comunicador produzir “isento”.


Existe uma discussão sobre a verdade que nasceu há séculos e que ainda está muito presente, que é acerca da existência da verdade absoluta. Porque certamente, se ela existe, não é encontrada nos jornais e revistas. Existe um filme de Wim Wenders chamado “O Hotel de Um Milhão de Dólares” que trata de uma série de questões, uma delas é sobre mídia e verdade.


Em determinado momento do filme, um dos moradores do hotel que batiza a obra discorre sobre a verdade. Ele diz que se acreditamos em algo isso seria real, logo, se todos acreditamos na mesma coisa, então isso seria a realidade. Vale citar que a personagem é um homem que afirma ter sido um membro dos Beatles que nunca foi reconhecido, mesmo sendo o verdadeiro compositor de todos os hits da banda. Ainda que notoriamente louco, sua fala é lúcida o suficiente para nos fazer repensar certos paradigmas que possuímos. Inclusive quanto àquilo que lemos nos jornais ou acompanhamos na TV.


Não quero dizer que a comunicação, a mídia e o jornalismo estão vinculados ao mal, e que nada de bom possa vir deles. O que acredito é que a relação entre jornal e público leitor deveria ser mais transparente. Não formamos “cabeças pensantes” ou cidadãos vendendo a estes informações que ele deve simplesmente aceitar, porque nós estamos dizendo e pronto. Existem países, como a França, onde cada veículo deixa bem claras suas ideologias, deixando a cargo do leitor escolher aquele que mais se enquadra no que ele acredita. Ou seja, se compartilho de uma determinada linha marxista, vinculada ao comunismo, leio isso, já se tenho ideais mais conservadores, sou a favor de um certo liberalismo econômico e de uma determinada ordem social eu leio outro.


Não cabe ao jornal educar e sim informar, estimular discussões e até mesmo satisfazer os desejos do público. Afinal isso também é negócio. Não reconhecer isso é evitar olhar diretamente para o que seria supostamente essencial: a verdade.
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