quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Revista Realidade - O new journalism no Brasil



Meus caros, meu guru Antônio Duarte sempre me surpreende. Como é de hábito, não perde aquele mal humor que acaba se tornando uma marca registrada. No fundo ele é um cara engraçado. Em nossa última troca de ideias, me ofertou com vários exemplares da Revista Realidade. Publicação editada entre os anos 60/70 pela editora Abril. Eu sempre ouvira falar nos bancos acadêmicos, que a Realidade foi o laboratório inicial da Veja, difícil de acreditar, mas é verdade.

A característica marcante da revista era o estilo baseado no conceito chamado new journalism. Um modelo que adotava narrativa bem pessoal, a partir das descrições e observações do repórter. Essa tendência teve em Gay Talese seu maior expoente. Talese trabalhou no New York Times, e posteriormente se tornou colaborador da Revista Esquire, uma das mais conceituadas da terra do 'Tio Sam'.

O new journalism botava literalmente o jornalista na trincheira da informação. Diferente de hoje, o coleguinha tinha que sair a campo e botar a mão na massa. Era uma prática empírica que resultava em um trabalho bem descritivo. Os textos se confundiam praticamente com a narrativa literária. Bem diferente de hoje, quando ficamos sentados aguardando um release chegar no email, ou esperando o telefone tocar com algum furo.

No Brasil, alguns jornalistas já se apoiavam nessa técnica, antes mesmo de sua conceituação nos EUA. Por essas bandas, João do Rio já contava suas histórias no início do século XX, sobre os modos e meandros, descrevendo a sociedade da então capital federal. O livro “As religiões no Rio” mostra isso, com muita propriedade.

O mestre Joel Silveira também pode ser inserido nesse escopo, com sua obra jornalistica e literária. A reportagem “Eram assim os grã-finos de São Paulo” , foi seu cartão de visitas para entrar na ribalta da mídia, comandada pelo barão Assis Chateaubriand.

Nos anos de 1960, as edições de Realidade, apresentam o trabalho empírico jornalistico como principal referência e estilística . O destaque fica por conta de uma reportagem feita por José Hamilton Ribeiro, na qual ele acompanha uma operação militar na Guerra do Vietnam. A matéria impressiona por ter um descrição pessoal e avassaladora do repórter, quando este descreve, a própria amputação de uma de suas pernas, ao pisar acidentalmente em uma mina explosiva. O trabalho conquistou na época - 1968, o Prêmio Esso de Jornalismo.

Por fim, ao ter contato com esse material fiquei realmente curioso em pesquisá-lo, e sobretudo, impressionado com a qualidade de texto e edição dos exemplares. Um verdadeiro tesouro.

PS. Estou lendo “A mulher do próximo” de Gay Talese, presente do meu amigo Luiz Alexandre, também colaborador deste blog.
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