segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Aos soterrados pelas intempéries


O assunto do momento em qualquer jornal, revista ou programa de TV. Li isso pela internet também. As chuvas que atingiram o Rio de Janeiro no final de 2009 foram como a tempestade que sucede a bonança. A imprensa até o momento nos fornece atualizações sobre os desabamentos que soterraram a casas na Praia do Bananal e no Morro da Carioca, em Angra dos Reis, na Região Litorânea, e em Cascadura, no subúrbio do Rio, mesmo com quase uma semana após o ocorrido. Como de costume, não param de computar o número crescente de mortes, de desabrigados, de medidas para tapar o sol com a peneira e mesmo de especular os gastos que serão necessários para reconstruir o paraíso que Angra sempre pareceu ser até o dia 30 de dezembro do ano que se passou.
Mas o Trágico ultrapassa sempre qualquer estatística. O fim da década de 00 gerou muito mais do que pautas para os abutres e transtornos administrativos e econômicos, que provavelmente não terão em boa parte as resoluções devidas, mas nos força o confronto com a velha dialética do Homem versus Natureza.
O cronista, romancista, dramaturgo e gênio Nelson Rodrigues disse uma vez que “o mundo é a casa errada do homem”, que este seria um “péssimo anfitrião”, tendo em vista todas as intempéries que nos atingem, sinal de que ele, o mundo, não quer absolutamente nada conosco. Ao vermos algo como o que passou materializar-se, chego a pensar que este também é amoral e possivelmente sádico. Enquanto as pessoas presentes nessas localidades estavam vivendo, fazendo planos para um futuro que se fazia cada vez mais presente, pedaços da terra que os cercavam, como num ato suicida, se desprendiam do chão e seguiam uma rota mortal de colisão desenhada pela gravidade com a impetuosidade de um Kamikaze. O resultado é imensurável.
Nossa relação de parasitismo obrigatório se encontra em um limítrofe: ou nós cuidamos do meio ambiente para mantê-lo nas condições que está, com a perspectiva de certas melhorias futuras, mas ainda a mercê de possíveis ataques terroristas da Mãe Natureza ou Pandora, como escreveu Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, ou detonamos com ele de vez, como que um coletivo de homens bomba, numa tentativa furiosa e cega de vingança pelos males que o mundo nos causou e ainda pode causar, onde tudo o que conseguiremos e transformar o mundo em alguma coisa que se pareça diferente do que é agora, mas assim como Marte continua Marte, a Terra continuará sendo a Terra.
Chegamos aqui sem pedir, vamos embora do mesmo jeito. Se não bastasse a biologia, a química, o ferro e o fogo, a física e a geografia também parecem ansiar por nossas caveiras. A história nem se importará, contará nossas mortes como uma mãe conta uma fábula aos filhos amados. Seja num barracão ou numa “pousada de bacana”, não estamos salvos. A nós, que ficamos, que soframos suas dores. Mas mídia, por favor, deixemos os mortos e os feridos descansar em paz.
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