quinta-feira, 1 de abril de 2010

Devíamos aprender a ler jornais


Acho que o escritor argentino Jorge Luís Borges disse algo sobre isso, e ele estava certo. Vejamos, por exemplo, o caso Isabella Nardoni. A nossa imprensa tornou o assassinato da menina algo tão espetacular que só faltou armar um palco em frente ao tribunal em que o caso foi julgado. Aliás, não faltou nem isso, já que uma multidão de pessoas reunidas naquele lugar fez sua parte. Cheguei a escutar pelo rádio uma pesquisa popular para saber se as pessoas achavam o casal culpado ou inocente. A menos que nossa população seja formada por detetives, criminólogos, legistas e que todos ao mesmo tempo estivessem tentando entender o caso, penso eu que qualquer opinião dada não passa de mero “achismo” e se tratando do julgamento de um crime simplesmente não interessa.  A maneira como o assunto foi tratado foi de uma leviandade tão grande que até mesmo Calígula ficara ruborizado.
Mas, não podemos negar, os Nardoni são um sucesso! A quantidade de notícias de jornais, revistas, TV, rádio e internet que foram divulgadas sobre ele, diga-se de passagem, sempre acompanhadas com entusiasmo pelas pessoas, deve ter causado menos comoção do que o final de “E o Vento Levou...”, o verdadeiro campeão em número de espectadores no cinema. No final das contas, a necrofilia não é um barato apenas de psicóticos e apreciadores de arte. Provavelmente Homero ficaria invejado com o grau de transferência que as pessoas depuseram nessa Tragédia.
Julgam-se o casal assassino, julgam-se os advogados, gritamos na frente da TV como crianças pequenas, fazemos uma grande roda de samba quando tudo acaba. Pena que você , Isabella, jamais poderá participar do sururu diabólico realizado pelos seus falsos amigos em teu nome. Que jamais verá a cor do dinheiro que as emissoras de TV conseguiram com os índices de audiência que você causou. Pena que não conhecerá as pessoas que durante cerca de dois anos não perderam um capítulo da novela de sua desgraça, que já se sentem purificadas mental e espiritualmente, pois puderam provar o sabor de matar e ser punido por um crime. Obrigado por morrer, doce Isabella.
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