terça-feira, 27 de abril de 2010

Fé e Religião : Não é necessariamente uma questão de superação


Chega ao fim o feriadão e se inicia a minha melancolia. Depois de encarar uma segunda-feira assombrada, cá estou eu na terça, esperando que chegue logo a sexta para ter sonhos molhados com o sábado. Não que eu seja um preguiçoso, claro, mas é que sou fruto de pais que trabalham muito, desde que eram meninos. Penso que é perfeitamente normal que um sujeito como eu possua certa predisposição ao cansaço. Contudo, nas ocasiões em que apresentei essa minha teoria, tive a ligeira impressão que as pessoas não me levavam a sério. Workaholics, frequentadores de academia, religiosos, nenhum desses grupos parecem concordar com essa minha visão um tanto idiossincrática, confesso, de olhar o labor. Eu, claro, poderia rebater seus argumentos citando o valor do ócio, das coisas maravilhosas no âmbito da arte que surgiram dele, como as canções de Dorival Caymmi ou algumas poesias de Fernando Pessoa, sua importância para a filosofia, que seria impossível sem uma calma, vagarosa e necessária introspecção, e com isso rebater uma série de mitos que existem acerca do trabalho. Poderia até mesmo lembrá-los que a própria palavra “trabalho” se origina de um instrumento de tortura, o “Tripaliu”, ao qual eram subjugados aqueles que não tinham condição de pagar os seus impostos na antiguidade. Podia dizer até mesmo que o sentido da palavra era esse, de tortura, até a Idade Média. Sem contar que, em toda história, o trabalho honesto nunca levou fortuna a ninguém. Podia lembrá-los também que esse falso construtor de caráter do homem manda anualmente mais pessoas pro buraco do que a guerra, mas não farei nada disso. Sabe como é, isso vai me dar uma trabalheira danada.

Não vou negar, porém, que sempre tive uma sincera expectativa, uma inapelável esperança de um dia derrubar essa minha “doença”. Afinal, a fé remove montanhas, não? Disso nunca duvidei. Outro dia, por exemplo, no Rio de Janeiro, houve um evento no feriado de Tiradentes, chamado “O Dia D”, da Igreja Universal. O nome não poderia ser mais apropriado. Enquanto milhões de pessoas, vindas de vários lugares, lotavam a Praia de Botafogo, os ônibus fretados que os trouxeram ficaram estacionados em torno da praia, tornando o trânsito da cidade tão caótico quanto a Normandia no dia 6 de junho de 1944. Muitos motoristas, mesmo os ateus, mesmo os mais céticos motoristas, olhavam para o alto e repetiam : “Deus, que do Céu olha por mim, por favor, não me faça abandonar o meu carro e dar na cara desse filho da puta que não pára de buzinar atrás de mim!” O que a imprensa não diz é que a maioria deles conseguiu resistir a tentação. Não é magnífica a capacidade do homem de encarar as adversidades através da fé? Ainda há quem pense que o homem, o brasileiro inclusive, não é capaz de ser formidável.

Do fundo do meu coração, eu não sou um sujeito anti-religioso. Tenho minhas críticas e reservas quanto às instituições religiosas, entretanto sei de vários casos onde a fé colaborou para que alguém superasse problemas sérios. Na minha família mesmo isso já aconteceu; tenho um querido tio que lutou por anos contra seu alcoolismo. Quero dizer, ele não lutava, era um sparring da bebida, perdia todas. Ele era o bêbado típico: engraçado, simpático e divertido. Mas isso só é legal até certo ponto. Simplesmente não via meu querido tio sem uma latinha na mão e isso parece ter gerado uma série de problemas de saúde e de relacionamentos, além de eventuais crises em minha família. Titio precisava parar de beber. Conseguiu. Após sua conversão a Igreja Evangélica ele nunca mais pôs uma gota pra dentro. Fico chato pra cacete e virou um fanático como todo cristão novo, mas está vivo e bem.

Sempre que começam a criticar religião, quaisquer que seja a religião, lembro-me de meu querido tio. Penso que sua fé o salvou. Mas não esqueço também que não é preciso religião para ter fé. Ou melhor, que qualquer coisa em que depositamos muita fé pode se tornar nossa religião e que isso pode ser muito complicado. Emil Cioran, filósofo romeno, ateu e profundamente cético, afirmava que o homem está sempre em busca de religião. Se o li corretamente, ele pensava que a crença cega numa ideologia pode ser o mesmo que pagar o dízimo e acender velas ao Nosso Senhor. Também quer dizer que muitas cabeças podem rolar por causa de um delírio.

Os alemães na década de 30, que viviam em sua grande maioria numa penúria abominável, levaram Adolf Hitler e o Partido Nazista ao poder, acreditando numa proposta de mudança. Ela veio, a nação prosperou, mas isso não foi gratuito. Quem era judeu ou simplesmente não era alemão pagou o pato. Os seus seguidores, fanáticos, que como numa igreja tradicional, possuíam diferentes grupos de ação, com membros de todas as idades, de jovens a velhos, trabalhavam junto ao regime e agiam com veemência para espalhar sua crença no Partido, de maneira similar ao que os beatos o fazem.

Não que as pessoas reunidas em Botafogo na semana passada fossem fascistas tupiniquins, mas a Igreja Universal, instituição essa que sempre seguiu uma lógica de “o freguês tem sempre razão” para arrecadar novos fiéis, abraçando gays, punks, esportistas, milionários, zarolhos e torcedores do Vasco da Gama, está longe de ser pura e bela como seus seguidores a afirmam. Os pastores possuem sim sua própria cota de ressentimentos, equívocos e preconceitos, além de mentiras, que são devidamente repassados aos seus seguidores. Meu doce tio, por exemplo, depois de sua conversão ficou um bom tempo de sua vida tentando dissuadir minhas tias católicas de sua fé. Por outro lado, outra tia minha, católica, tentou “aliciar” a sobrinha-neta, evangélica, para ir a uma missa em sua igreja. Esses são casos brandos, ingênuos, mas já teve casos de gente que invadiu terreiros de Candomblé por considerar a crença abominável. Olhando para trás vimos islâmicos se chocando contra torres em Nova Iorque, lemos sobre vários casos entre Israel e a Palestina de motivação tanto ideológica quanto, vá lá, divina. Na Idade Média, que Hollywood adora retratar com atores bonitos e romantismo barato, os Cruzados botaram pra ferver no Oriente Médio, onde se engalfinharam com os também sangrentos turcos muçulmanos que dominavam a eternamente problemática Palestina. Pois é, a fé também pode ser capaz de matar.

Agora, pra ver como as coisas são, tem gente que conheço, no entanto, que só se encontrou ideológica e intelectualmente quando passaram a acreditar na negação da existência divina. Alguns deles também, engraçado, gostam de discutir em fóruns e sites o seu ateísmo, outros deles até mesmo lêem livros que dissertam sobre o quanto Deus não existe e como quem acredita nele é uma besta, que sua vida deve ser vivida sempre de acordo com o que sua vontade julgar correto ou a ciência afirma verdadeiro. Faz-me pensar em mamãe, católica fervorosa, lendo a bíblia e ouvindo o padre Marcelo Rossi dizendo sobre os perigos de viver sem Deus, da falta de moralidade dos não-cristãos e  sobre certos que ela ouve sobre a ciência tentar acabar com a religião. Acaba que, no fim, todos oram para algo.

Nelson Rodrigues dizia-se cristão, mas só gostava das igrejas vazias, pois era nelas que Deus habitava. Dizia que o padre e os crentes atrapalhavam. Eu poderia perder outros 6.400 caracteres afirmando o quanto penso que ele pode estar certo, mas paro por aqui. Depois de tanta atividade intelectual vou precisar tirar umas duas horas de soneca.
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