quinta-feira, 21 de julho de 2011

"Falha de São Paulo", o Wikileaks brasileiro?






Lino Bocchini é um dos autores do blog "Falha de São Paulo", que fazia uma crítica bem humorada ao jornal "Folha de São Paulo". O blog foi tirado do ar pelo jornal em ação judicial. Agora, Lino escreve em outro blog, o "Desculpe a nossa falha". Em conversa com este que vos escreve, em matéria para o Radiotube, Lino falou sobre o polêmico site Wikileaks e da liberdade de imprensa em tempos de internet, rádios comunitárias, AI 5 Digital, entre outros temas. Confira!

André Lobão: meu caro Lino Boccini, como começou essa história do seu blog e essa confusão com a Folha de São Paulo?

Lino Bocchini: eu abri com meu irmão, o Mário, um site de paródias e críticas a Folha que se chamava “Falha de São Paulo”. Isso foi a partir de setembro de 2010. A gente tinha fotomontagem, uma série de brincadeiras, era um blog de paródias do jornal como o próprio nome já diz “Falha de São Paulo”. Aplicávamos sempre um texto curto com fotomontagens copiadas e brincadeiras de forma crítica. Depois de um mês de atividades a “Folha” conseguiu uma liminar para nos tirar do ar.

André Lobão: como transcorreu essa situação?

Lino Bocchini: não ocorreu qualquer tipo de aviso, veio direto uma liminar, e além da liminar, eles abriram um processo de 88 páginas no Fórum de São Paulo. Nos acusaram de uma série de coisas como má-fé e etc. Eles estão pedindo dinheiro como indenização por danos morais ao jornal. Então, a situação é meio surreal. Eu e meu irmão estamos sendo processados pelo maior jornal do país, por conta de uma piada que a gente fazia sobre eles. Do jornal que se diz um jornal do futuro, que se diz respeitador da liberdade expressão.
André Lobão: a grande mídia é mal-humorada?

Lino Bocchini: eu acho que eles não estão sabendo lidar com este momento novo de que você pode ter uma rádio, um blog, que todo mundo pode falar o que quiser. Não são mais os grandes jornais, rádios que estão por cima “da carne seca”, sendo os únicos que podem falar. Essa realidade já passou, já faz parte do passado. Hoje em dia, muito por causa da internet, todo mundo pode falar o que quiser, pode ter seu próprio meio de comunicação, sua própria rádio, seu próprio blog e até seu próprio jornal. E os “elefantes brancos” do passado não se acostumaram ainda com essa realidade. Aquela entrevista que o Lula deu para os chamados blogueiros progressistas causou uma inveja e uma revolta enorme em todos os jornalistas dos meios convencionais. Esse próprio processo da Folha, agora contra um blog independente e minúsculo, que estava brincando, mostra que eles não estão acostumados com esse novo momento da comunicação do mundo e do Brasil.


André Lobão: pois é, você falou dos blogueiros progressistas. É possível que a eleição de 2010 tenha sido o momento catalisador da internet para o surgimento de uma opinião independente, fora do eixo dos chamados “jornalões”?

Lino Bocchini: eu acho que sim, porque foi a primeira eleição que contou com a plenitude das redes sociais fortes. A primeira já com uma facilidade muito grande de se abrir blogs ou fazer rádio e TV na internet, de se utilizar o youtube e por aí vai. É quase um excesso de democracia, digamos assim, na visão do lado de lá. Eles sempre foram acostumados a serem os únicos jornais. Imagina para quem tinha um milhão de tiragens de exemplares e hoje em dia tem menos de 400 mil, ou como a Globo que tinha mais de 70% de audiência e agora tem 30% ou 40%. Ou seja, a coisa tá pulverizando, todo mundo está tendo a chance de falar. Agora imediatamente eles são rebatidos na internet. Em um instante eles são contestados, surgem novas versões. A coisa está muito mais rápida e muito mais livre, o que torna tudo muito mais difícil para o lado deles, mas muito mais interessante para a sociedade.

André Lobão: você está sendo acionado na justiça. Dá pra fazer um comparativo com o Wikileaks, com a situação que o Assange está passando? É claro, nas suas devidas proporções...

Lino Bocchini: olha, quem me dera na verdade ter um por cento do poder do Assange. Nós fomos até chamados para ir a um ato pró-Assange. Eu acho que dá pra fazer um paralelo sim aí neste caso. O problema é que as pessoas não conseguem entender o que está acontecendo no mundo. É impressionante. Parece que a internet surgiu ontem... A internet surgiu há mais de vinte de anos. Reparem de que forma a Veja e outros veículos noticiam a questão do Wikileaks: “nossa, agora as redes sociais estão fortes, puxa, agora tem uma reação em cadeia no mundo inteiro”. Descobriram a América...(sic) Mas precisa vir uma coisa tão forte como essa do Wikileaks para que as pessoas se deem conta disso. E aí, o paralelo que é possível traçar a partir do caso do Assange, é que eles não podiam calar a boca dele pelos conteúdos secretos que o Wikileaks estava divulgando. De fato, o cara estava incomodando, e daí tiraram da cartola aquela bobagem do suposto estupro que ele cometeu na Suécia. Mal comparando, e claro, guardadas as devidas proporções, no nosso caso, como não dava para nos pegar pelo conteúdo, porque a legislação não permite, eles inventaram uma história de uso indevido de marca. Que o nosso logo era parecido, que o nosso nome era parecido. Aí pregam o discurso que não se quer censurar... “Na verdade, queríamos só evitar o uso indevido da nossa marca, que é uma marca estabelecida, com 80 anos”... Disparam todo aquele blá blá que vai contra a própria constituição. Haja vista que todo mundo faz paródia desde sempre e ninguém é processado. Então, este paralelo é possível sim.

André Lobão: Lino, essa questão do projeto do senador Eduardo Azeredo, de Minas Gerais, sobre o controle da internet. Isso não está sendo meio contraditório para a grande mídia? Como você enxerga isso?

Lino Bocchini: eu acho que aí, novamente, é mostrada a incompreensão da forma como a internet funciona. Antes de fazer o que os ativistas desta área estão chamando de “marco civil”, ou seja, antes de se garantir as liberdades individuais, as liberdades de expressão na internet, você vem com um projeto gigantesco pra criminalizar o usuário. Inventam um projeto que está sendo criticado por dez entre dez pessoas que entendem um pouquinho de internet. Porque ele criminaliza de forma grotesca o usuário. Se você copiar uma música do CD, que você comprou na loja, você tá cometendo um crime. Se você passar uma música do seu computador pro seu IPod, você tá cometendo um crime. Os servidores têm de guardar todos os rastros de todos os sites que você passou nos últimos meses e entregar isso para uma autoridade policial, sem que essa autoridade tenha sequer um mandado judicial. Ou seja, eu poderia ficar aqui falando meia hora da lista de absurdos que tem no projeto do Azeredo, que é um senador que obviamente não sabe do que está falando. Ele está aparentemente a serviço das grandes empresas ou corporações que estão tentando ainda se agarrar a formas antigas de copyrights, direitos autorais e etc. E estão tentando aí com chances de conseguir, caso não haja uma mobilização, aprovar uma lei absolutamente reacionária no Brasil. Mas ainda bem que está tendo uma mobilização grande contrária, e é possível que seja evitado aprovar da forma que está.

André Lobão: existe uma movimentação para se criar um órgão regulamentador da mídia. O que você pensa sobre isso?

Lino Bocchini: acredito que essa discussão é curiosa. Eu sou contra a regulamentação da mídia. Mídia impressa e escrita, contra a regulamentação que seja. O que eu sou a favor é de uma discussão de concessão pública de rádio e TV. Isto sim, eu sou a favor. É que os grandes grupos estão misturando as duas coisas. Eles colocam que para você discutir a concessão pública de rádio e TV seria um ato de censura. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. A Folha, a Veja, todos os serviços de jornais no Brasil inteiro, todos os sites e etc, são de iniciativa privada. Então, eles podem falar o que quiserem. Agora rádio e TV são concessões públicas. Acredito também que é preciso discutir o papel das igrejas nesse processo. Essa discussão sim, eu acho que é legítima. Por que um sindicato não tem uma rádio, mas a igreja tem? Ou como explicar um deputado que tem uma rádio e um movimento social que não tem? Por isso, eu acho que o interessante é a discussão sobre a concessão pública, essa sim. Por que os bispos da Record têm uma concessão para ganhar rios de dinheiro, ou para abrir mais uma igreja, ou por que o Silvio Santos tem uma programação horrorosa há décadas, e tem uma concessão pública na qual ele ganha muito dinheiro? E fica tudo por isso mesmo. Portanto, as discussões sobre a concessão pública são legítimas. Agora, a concessão sobre a regulação de conteúdo não sou a favor por motivos óbvios.

André Lobão: Lino, como fica a questão do pessoal das rádios comunitárias que sofrem no momento uma intensa perseguição?


Lino Bocchini: pois é... Sabe qual é o problema? A Globo e todos os grandes meios de comunicação brecam qualquer tentativa de discussão sobre essa questão. O argumento deles é esse: o governo está querendo controlar a mídia. Não adianta, eles colocam tudo no mesmo balaio para não ter o risco de ameaça sobre o poder deles. É uma tática muito cruel na verdade. Porque é óbvio que o Governo não vai tirar a concessão da Globo. O governo não vai fazer isso. Isso é uma loucura total. O que está em voga é o porquê dessas rádios comunitárias estarem sendo consideradas ilegais. Anatel vai lá e confisca todo o equipamento deles. Eu acho que isso precisa ser debatido, porque é uma concessão pública. Não é o cara que tirou dinheiro do bolso dele e fez um jornal. São outros quinhentos. É outra história. 
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