segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Uma eleição que disputa valores

Um dos fundamentos da democracia moderna é a separação entre a Igreja e o Estado e a garantia de que o exercício da cidadania política independe das crenças religiosas de cada um. 
Em contrapartida, o Estado assegura a imparcialidade no trato com as diferentes Igrejas, a liberdade religiosa e a convivência respeitosa entre as diferentes religiões.

Curiosamente estamos vivendo uma situação singular nestas eleições, no Brasil. Uma situação que desafia esse fundamento da democracia. Uma Igreja disputa as eleições: a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) quer eleger prefeitos e vereadores através de sua sigla partidária, o Partido Republicano Brasileiro (PRB). Essa afirmação requer duas coisas: primeiro, sua comprovação; segundo, uma reflexão sobre suas implicações. O que significa uma Igreja à frente do poder político? E por que uma Igreja quereria eleger um prefeito?

Já no final dos anos 1980, a Iurd era uma potência. Tinha adquirido a Rede Record de televisão e possuía, segundo seu fundador, Edir Macedo, milhares de pastores e obreiros e milhões de fiéis espalhados por quatro continentes. A Iurd cresce também no Brasil e adentra o mundo da política, integrando o PRB, que tinha como presidente de honra o vice-presidente da República, José Alencar, um católico fervoroso. Em 2006, na primeira eleição disputada pelo PRB, o único deputado federal eleito foi o pastor da Iurd, Léo Vivas. Nas eleições de 2010, o número de deputados federais eleitos passou para oito e foram eleitos dezessete deputados estaduais. Atualmente, a bancada do PRB no Congresso tem nove deputados federais, sete dos quais pastores da Iurd.

No plano da vida partidária, em 2011, com a morte de José Alencar, a Iurd consolidou seu controle sobre o partido. Marcos Pereira, da Iurd e da TV Record, assumiu sua presidência; pelo menos dez dos dezoito membros da Executiva Nacional do PRB são da Iurd ou da Record; os sete cargos mais importantes da Executiva estão nas mãos de pastores da Iurd; 23 dos 27 presidentes estaduais têm vínculos formais ou com a Iurd, ou com a Record.1
Esses dados tentam demonstrar que, mesmo se os eleitores do PRB forem para além do mundo de seus fiéis, que estão entre os 16 milhões de evangélicos brasileiros, quem se fortalece nesse processo, elegendo seus pastores ou seus representantes, é a Iurd.

Se o PRB é controlado pela Igreja Universal do Reino de Deus, sua Executiva Nacional e seus presidentes estaduais são da Iurd, as bancadas federal e estaduais eleitas pelo PRB são em sua esmagadora maioria de pastores da Iurd, podemos e devemos colocar em questão se esses candidatos, quando eleitos, defenderão os interesses públicos ou os interesses de sua Igreja.

Nestas eleições municipais, o PRB tem candidaturas próprias em quatro capitais: São Paulo, com Celso Russomano; Salvador, com o bispo Márcio Marinho; Maceió, com Galba Novaes; e Boa Vista, com Mecias de Jesus. A legenda pretende eleger de sessenta a oitenta prefeitos e dobrar a bancada de deputados federais em 2014.

Tomemos o exemplo de São Paulo. Como um prefeito que é umbilicalmente ligado à Iurd e à Record vai tratar a diversidade sexual, a Parada Gay? Como serão geridas as relações da prefeitura com as entidades assistenciais que prestam serviços às comunidades? Serão privilegiadas as entidades assistenciais afins com a Iurd? Haverá proselitismo religioso? E a questão do aborto? Da gravidez precoce?

Não se trata de criminalizar esta ou aquela Igreja. Essas questões, aliás, não se referem unicamente aos evangélicos, mas apontam para uma necessária distinção entre a natureza da política pública, que deve se orientar pela garantia de direitos para todos, e a natureza das religiões, que afirmam valores morais e regras de conduta que, em muitos casos, se chocam com a necessária pluralidade cultural e de valores que são riqueza e patrimônio de cidades como São Paulo. Afinal, qual é a cidade que a gente quer?




Silvio Caccia Bava
Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil

1 Ler Cláudio Gonçalves Couto, “Russomano, o católico”, O Estado de S. Paulo, 18 set. 2012, p.A2





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