segunda-feira, 24 de junho de 2013

A escolha de Dilma


As manifestações que há mais de 10 dias abalam o Brasil tomaram rumos e proporções inesperadas. Por conta disso, vale à pena fazer algumas reflexões para tentar explicar o que está acontecendo. A primeira trata da apatia dos governantes na leitura do que acontece atualmente. Mas para tentar explicar isso devemos voltar no tempo, precisamente no ano de 2002, com a eleição de Lula e ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder. Naquele momento histórico, o fato representou o sinal de mudança e de uma nova perspectiva para um país que cultivava a inércia e acomodação após uma mal sucedida experiência neoliberal. Construindo uma imagem de conciliador, o líder sindical alicerçou alianças políticas à oligarquia do PMDB.

Em nome da governabilidade, o então novo governo não realizou as reformas estruturais no sistema político que eram necessárias, e continuou a alimentar o modelo fisiológico administrativo-legislativo vigente e tão criticado por ele nos anos anteriores em que liderava à oposição. Assim, Lula e o PT decepcionam pela primeira vez. Como resultado disso estoura, em 2005, o escândalo do “Mensalão”, uma rede que envolvia parlamentares da base aliada que recebiam propinas para apoiar projetos do governo. A partir daí “acabou o amor” com a grande mídia. A Revista Veja, as organizações Globo, os grupos Estadão e Folha iniciaram uma verdadeira cruzada contra o governo que a principio não surtiu efeito, pois Lula se reelegeu em 2006 e conseguiu eleger Dilma Roussef em 2010.

Mas as denúncias não cessavam, e, estranhamente, o governo do PT ignorava e fazia ouvidos de mercador para o que estava acontecendo no ambiente político / administrativo sobre as denúncias de corrupção. Dilma ainda tentou dar sinais de que estava agindo, mas o resultado de suas ações não obteve êxito perante a “respeitável” opinião pública. Em 2012, após quatro meses, é concluído o julgamento dos acusados de participação no esquema do “Mensalão”. Mais de 40 condenações para empresários e políticos envolvidos, dentre eles cabeças coroadas do PT como José Dirceu e José Genoíno.

Dos condenados, somente operador do esquema, o publicitário Marcos Valério cumpre pena em regime prisional. Contrariando o Supremo Tribunal Federal, a Câmara dos Deputados deu posse a Genoíno, condenado à seis anos e 11 meses de prisão, que como suplente foi empossado para substituir o Deputado Carlinhos Almeida – PT/SP, eleito para Prefeitura de São José dos Campos/SP. O episódio acabou por ser tratado pela mídia tradicional como uma grande afronta. Em resposta, o Partido dos Trabalhadores alegou que o julgamento do “Mensalão” foi político por conta de algumas aberrações jurídicas que cercearam a defesa dos acusados. Assim, o PT não reconhecia o erro em ter legitimado o jogo do “toma lá da cá” herdado de governos anteriores. Mas o PT de Lula e Dilma preferiu direcionar sua energia somente às reformas sociais, em detrimento da reforma política.


É inegável verificar que o Brasil obteve um avanço significativo a partir das políticas sociais como o Bolsa-Família, ProUni, Minha Casa Minha Vida, que inseriram aqueles que viviam à margem da economia oficial. Temos hoje uma nova classe média que deseja se desenvolver ainda mais a partir de uma lógica ultracapitalista, baseada no endividamento financeiro e consumo de produtos e serviços. Mas isso não foi o bastante. As mudanças propostas pelos programas de governo de Lula e Dilma ficaram em “banho maria”. E hoje, no atual contexto das passeatas pelo Brasil, estão sendo cobradas de uma forma dura e agressiva pela burguesia.

A essas reformas não realizadas somam-se à crise a questão da mobilidade urbana, focada principalmente na má qualidade dos transportes públicos, que vale lembrar, foram privatizados no período neoliberal de FHC. E também em relação aos gastos excessivos para a realização da Copa do Mundo e Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro. Até o momento já foram programados 30 bilhões de reais a serem empenhados somente com a Copa. Já está mais do que na hora do PT retomar seu programa de governo em busca de reformas essenciais do país. A sua imagem está sendo desconstruída pela inércia e acomodação do poder e, principalmente, pela mídia que associa o partido ao que há de pior no mundo da política, esquecendo-se de criticar um modelo viciado e oligárquico existente desde os primórdios da administração pública brasileira em tempos de Cabral. O Pedro...


Por enquanto, a burguesia está nas ruas cobrando mas ela é capaz de mais. É preciso estar atento aos anseios dela, afinal a classe média é bombardeada diariamente com o discurso da moralidade que encanta não somente a quem não gosta da política. A estrada para uma retomada conservadora está sendo asfaltada. Enfim, visualizo que há sim legitimidade nas mobilizações, mas também tenho a leitura de que há apropriação dos setores que não querem avançar e são contra as reformas sociais. A escolha de Dilma não pode ser o dilema de “Sofia”, que deveria escolher um de seus dois filhos para ser morto em um campo de concentração nazista. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos, conforme drama retratado no filme de Alan J. Pakula, em 1982. Que Dilma escolha o PMDB para o forno ao invés do povo. Reformas já!
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