quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cientista Político explica a "Revolução do Vinagre"

Diversas mobilizações tomam conta de praticamente todas as cidades do Brasil. São vários grupos que pedem melhores condições de serviços básicos como: transportes, saúde, educação, segurança, além de transparência nos gastos públicos e também pelo fim da corrupção nas várias esferas das administrações municipais, estaduais e federal.
De imediato, o movimento sofreu com a negativação da mídia tradicional, e claro, dos governantes. Ele ficou conhecido inicialmente como “Revolução de Vinagre”, por conta da proibição da Polícia Militar do estado de São Paulo, que apreendeu diversos manifestantes por portarem garrafinhas de vinagre. A substância atenua os efeitos das bombas de gás lacrimogênio.
Através do radiotube.org.br realizei uma entrevista com o Sociólogo, Cientista Político e Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Paulo Baía. Ele faz uma análise de toda essa mobilização inédita no Brasil que entre outras coisas provocou uma mudança no paradigma da política brasileira acostumada a acomodação dos partidos políticos e  indolência no tratamento da causa pública.

André Lobão: como explicar hoje esse momento no Brasil, a “Revolução do Vinagre”?

Paulo Baia: a expressão é boa e é um fato novo no Brasil. Eu explico como a partir de um movimento de luta em que a população brasileira possa  ser mais respeitada  e reconhecida como ser humano digno.

André Lobão: podemos dizer que esse movimento de protestos pelo Brasil tem alguma semelhança com os ocorridos na Europa  e nos países árabes?

Paulo Baia: vamos dividir essa resposta em duas partes, pois ele é bem complexa. Primeiro, o movimento não tem nada haver  com que aconteceu na Europa e nem é tipo uma primavera árabe, até porque o movimento não é de contestação a direitos que  estão sendo  perdidos, como lá, e nem de insurreição popular de derrubada de governos . E nem na montagem de novos da forma como ocorreu na Tunísia e Egito. A característica do nosso movimento é de pauta mesmo. São muitas as reivindicações e  ele é multireivindicatório, com reivindicações inclusive contraditórias. Você assiste nas manifestações um grupo que é a favor do aborto e outro que é contra. Um grupo que é a favor da legalização da maconha e outro que não é. Tem todas as reivindicações. Mas, entretanto, existe uma unidade, e essa unidade é uma demanda por respeito e reconhecimento. É isso faz a unidade de todos esses grupos diferenciados existentes nesse movimento todo.


André Lobão: o senhor acredita que os partidos e a classe política estão tendo dificuldade em fazer uma leitura do que está ocorrendo neste momento no Brasil?

Paulo Baía: os partidos políticos, os governos e as elites  não estão entendendo nada do que está acontecendo e não sabem o que fazer. Estão fazendo cada vez mais bobagens. O que nós estamos tendo é pela primeira vez um fenômeno novo que é a participação da população. Além disso, essa participação não está sendo reprimida com sucesso como todas as demais participações foram no passado, ou quando eram cooptadas. Isto é absolutamente novo  como fenômeno social no Brasil. Esta característica  faz com que tenhamos de analisar esse momento  com novos conceitos  e novos olhares, e não com velhos conceitos e velhas fórmulas. O que os operadores do Estado, as instituições e a sociedade estão fazendo?  Dando soluções velhas. O que o povo quer é ser reconhecido, participar  e compartilhar  os seus sentimentos junto com uma tomada de decisão , seja ela qual for, em suas áreas diferenciadas. E isto não está acontecendo. Mais uma vez as elites brasileiras,  estatais ou não , estão vindo de cima para baixo com decisões para procurar abortar o movimento de participação que se espalha pelo Brasil afora.

André Lobão: como o senhor avalia o tratamento que a mídia tradicional está dando a esse movimento de protestos? De início ela se portou contra, não foi?

Paulo Baía: aconteceu o seguinte: existe uma pesquisa do Ibope que mostra que a partir do dia 13 de junho, 85% da população do Brasil, algo em torno de 195 milhões de pessoas, estavam se sentindo representados pelos que estavam nas ruas protestando e que gostariam de estar nas manifestações. Então, isso fez com que a mídia tradicional, sobretudo, as TVs e as rádios de largo alcance mudassem as suas linhas editoriais. Da mesma maneira que os governantes e as autoridades públicas mudaram os seus discursos, que, aliás, é um discurso cínico que tenta enganar a população. Assim, a mídia teve que mudar sua abordagem da situação porque a maioria de seus ouvintes e telespectadores  estavam apoiando e se sentido representados pelos manifestantes.

André Lobão: as redes sociais utilizadas como plataforma para agregar esse movimento acabaram por mudar esse fluxo sobre o noticiário na mídia?

Paulo Baía: sim, um pouco. Mas o que efetivamente mudou a linha editorial da mídia foi quando a própria mídia começou a bater no movimento, e ele próprio através das mídias alternativas, não apenas as redes sociais, mas de rádios comunitárias, jornais locais de diversos grupos e do boca a boca fez com que o Ibope detectasse esse sentimento de maioria absoluta da população brasileira a favor dos manifestantes. E não apenas a favor, se sentindo sim representada por eles.

André Lobão: como analisar a violência de alguns grupos radicais nas passeatas?

Paulo Baia: em toda manifestação pública tem sempre grupos que caminham para a violência, porque essa é a proposta deles. Você tem anarquistas, punks, neonazistas, você tem alguns partidos que querem um processo de insurreição e querem tomar a “cabeça” do movimento. Então, você tem esse tipo de situação. Agora, o que me impressionou muito é que a maioria dos manifestantes repudia e vai contra esses grupos. Aliás, eu acho que esses atos não podem ser  chamados de vandalismo. Eu prefiro chamar isso de um conjunto de violências e perversidades. Esses atos  acontecem quando a maioria dos manifestantes está se dispersando. É na dispersão que essas violências acontecem, quando esses grupos vão preparados para fazer a violência. Durante a manifestação, o conjunto das pessoas controla os próprios grupos. Eu assisti aqui no Rio de Janeiro uma cena que me deixou bastante  emocionado. Foi quando vi o Teatro Municipal cercado por manifestantes que não permitiam que outros participantes o depredassem. Isso é absolutamente novo para o Brasil. O problema é que as autoridades cínicas agora apoiam as manifestações, mas realçam os chamados casos de vandalismo. Então, o que fica é essa fala que se coloca em contraposição aos sentimentos da população, que se sente agredida quando é chamada de vândalo. Quando ele quer livremente manifestar seus desejos, por mais díspares que sejam.

André Lobão: professor Paulo, estamos vivendo um momento histórico?


Paulo Baía: sim, estamos vivendo um momento histórico e novo para o país e muito positivo. Isso porque pela primeira vez os mecanismos clássicos de repressão da participação popular não estão dando certo. E ao mesmo tempo,  também, é novo o fenômeno de participação popular. O povo brasileiro está dando um recado: “queremos ser respeitados, queremos ser ouvidos, queremos participar de verdade. Não aceitamos nada de cima para baixo. Queremos simetria nas relações”.






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