terça-feira, 30 de julho de 2013

"O Facebook não faz nada, quem faz somos nós que estamos lá dentro"

Renato Rovai é jornalista, mestre em comunicação, editor da Revista Fórum, midialivrista e blogueiro. Atualmente, é também professor na Faculdade Cásper Líbero. Em um bate-papo realizado durante o Fórum #OndaCidadã10, realizado entre os dias 24 e 27 de julho de 2013, na Fundação Casa Grande em Nova Olinda-CE, ele concedeu uma entrevista ao radiotube.org.br. Rovai falou sobre o evento e versou em relação ao atual contexto de mobilizações globais a partir da internet.

André Lobão: Qual é a sua avaliação sobre o #Ondacidadã10?

Renato Rovai: Foi um encontro bastante interessante. Eu acho que a seleção das pessoas realizada pelos curadores, entre eles o Fabio Malini, professor da Universidade Federal do Espirito Santo foi muito feliz. Eles acabaram trazendo projetos que dialogam, mas que ao mesmo tempo tem muitas diferenças de concepção, de estágios em que estão. E isso acaba permitindo uma troca de conhecimentos que faz avançar em busca de novas ideias. Vale a pena destacar isso. Não trouxeram só os iguais para o mesmo lugar.

André Lobão: Essa diversidade vai levar a algum ponto em comum?

Renato Rovai: Eu não me preocupo muito com pontos comuns. Eu acho que isso é uma coisa da cultura hacker que eu valorizo. Você precisa estar muito preocupado com o processo, mais do que com o produto em si. Se você se preocupa mais com o produto, você perde o “time” mais interessante. Recorro àquela propaganda em que os garotos estão subindo uma montanha, cansados. Ficam horas e horas subindo esgotados. E quando chegam lá olham e um diz ao outro: “E aí, beleza, vamos agora descer?” Então, você percebe que é preciso estar pensando que o processo também é interessante. Eu acho que esse processo de reunião vai melhorar a capacidade de cada um em proporções distintas. Uns vão aproveitar mais e outros menos. O Eduardo, que esteve presente no fórum, é um guri que tem 15 anos que está vivendo uma experiência muito nova. Ele é um blogueiro da Rocinha, que tem um blog chamado “Geral Conectado”. Esse rapaz conviveu com pessoas mais experientes, mais velhas e com outras histórias. E isso vai ser fundamental para ele no desenvolvimento de seu projeto.

André Lobão: Renato, você é um ativista que acompanha toda essa movimentação, é antenado, acompanhou os protestos na Europa, Revolta Árabe... Como você avalia esse caldeirão global que agora tem o Brasil incluído?

Renato Rovai: Esse processo tem muito a ver com esse formato de rede distribuída, que é a lógica dinâmica da internet. Nossa história de rede é anterior à essa de rede interconectada. Os índios já tinham a deles, os sindicalistas quando faziam um movimento já trabalhavam com essa dinâmica. Você imagina que existiam as comissões de fábrica se organizando localmente. O líder ia para as reuniões do sindicato, trazendo ali o que era discutido nas comissões. Então sempre ocorreu essa dinâmica. Só que agora temos um processo de interconexão de multidões, isso que é o diferente. Eu costumo brincar com uma situação peculiar que aconteceu na minha família, quando descobri a força da rede interconectada. Isso ocorrei no dia que minha filha fez 14 anos. Hoje ela está com 22. Na época ela colocou um post no Orkut falando sobre a comemoração do aniversário, e disse que quem quisesse ir poderia comparecer. E foi muita gente. Ou seja, nem todos eram amigos diretos dela. Provavelmente, alguns garotos daqueles que a seguiam, acabaram por compartilhar com os outros amigos. Que por sua vez convidaram outros amigos. Essa é à força dessa nova rede. Você pode ter uma pessoa que é um ponto menor, que você julga como pouco influente, e de repente se ela faz uma coisa interessante pode acabar viralizando isso e chegar às multidões. Então, muito rapidamente ela pode ter uma força de impacto na sociedade. É o que está acontecendo hoje no Brasil, de alguma forma. Mas só acontece quando aquilo que está sendo compartilhado e debatido tem expressão na sociedade real.

O Facebook não faz nada, quem faz somos nós  que estamos lá dentro. Tem gente atuando como robô lá dentro? Tem. Mas esse “robô” não transforma nada em viral se não tiver dado uma densidade real à mensagem. Se as pessoas não quiserem replicar, aquela mensagem não tem sentido algum. Isso que está acontecendo no Brasil é muito da expressão desse fenômeno, que é a sociedade informacional. O que você come hoje, um produto agrícola, por exemplo, tem relação com a sociedade informacional e não mais com a sociedade industrial. Não é mais o trator que produz o teu alimento, é o computador que desenvolve as pesquisas desenvolvidas a partir das sementes transgênicas, defensivos agrícolas e tal, a partir de um “x” ou “y”.

Então, esse processo informacional está modificando todas as relações de forças na sociedade que produz movimentos com essas características: fragmentada em múltiplas pautas, que são mais horizontais e sem grandes lideranças. E esse é momento que o Brasil vive essa experiência. Nós podemos sair dela mais fortes do ponto de vista democrático. Eu lembro que lá no Egito derrubaram o Mubarak que estava no poder há mais de 40 anos. Depois elegeram o Mursi que não deu conta do recado e o derrubaram também, e agora chegaram os militares que também não vão ficar muito tempo no poder. Na Espanha, o Partido Socialista Obrero não cumpriu o contrato que assinou com os seus eleitores e, por isso, não se reelegeu. O Partido Popular foi eleito e vai perder as próximas eleições. É o que todos os analistas espanhóis estão dizendo. Porque não fizeram valer o discurso. Hoje temos uma crise das instituições mediadoras que tem a ver com a democracia representativa.

André Lobão: para encerrar o nosso papo, fale um pouco da revista “Fórum” e os planos para o futuro...

André Rovai: A Fórum também precisa se reinventar nesse contexto. Não posso ficar fazendo uma revista do mesmo jeito, depois de tudo que aconteceu. Não posso mais continuar distribuindo a revista com um modelo da Chinaglia (distribuidora), que te coloca em uma situação de estrangulamento no processo de chegada aos leitores. Nós precisamos pensar novos modelos para inaugurar um novo tempo nas publicações. Nós já fazemos coisas bastante conectadas com esse tempo. Já trabalhamos com o Creative Commons, disponibilizamos todo o nosso conteúdo na internet, nossa relação com os parceiros é de interatividade e abrimos o nosso código para quem quiser. Pode perguntar que não tem problema, informamos tudo! Enfim, não temos um formato Coca-Cola, mas precisamos avançar e ter mais pessoas conectadas na nossa proposta de trabalho e produção de conteúdos.       
                  

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