domingo, 7 de julho de 2013

O trabalho resiste


O Cientista Político Giuseppe Cocco é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Doutor em História Social pela Universidade de Paris. Atualmente Cocco é coordenador  do Laboratório  Território e Comunicação da UFRJ. Ele escreveu com Antonio Negri o livro “Global, biopoder e luta em uma América Latina globalizada”, e é autor de vários artigos relacionados ao debate de temas como Globalização, Direitos Humanos, Comunicação e Trabalho.
Em 2010 o governo Lula vivia o auge de sua popularidade, e surfava no crescimento econômico em meio à crise que apertava a América e Europa. Nesse mesmo ano Dilma Roussef era eleita presidente dando assim continuidade ao governo do Partido dos Trabalhadores. Apresento aqui uma entrevista realizada naquele ano em que o otimismo em relação às mudanças no Brasil ainda existia e a economia mundial passava por um verdadeiro cataclisma financeiro. O papo começou a partir de uma análise sobre um encontro das centrais sindicais ocorrido em São Paulo. Esse encontro debateu principalmente à precarização do trabalho, hoje uma pratica patronal tão presente na vida dos trabalhadores, e esquecida em tempos de protestos por melhores serviços públicos no Brasil. Ainda na conversa ele discorreu sobre a questão do desmonte dos sistemas sociais, como uma pratica recorrente dos governos neoliberais europeus, e há muito reclamada pelos defensores do estado mínimo brasileiro. Vale lembrar que a entrevista foi dada ao radiotube.org.br

André Lobão: professor Giussepe, recentemente foi realizada a primeira conferência da classe trabalhadora. Qual a importância desse encontro que foi realizado no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, com a presença de mais de 30 mil trabalhadores, e coordenado pelas principais centrais sindicais do Brasil, no último primeiro de junho (2010) em São Paulo?

Giuseppe Cocco: Eu queria dizer que uma iniciativa desse tipo, uma reunião unitária das organizações sindicais, tem uma grande importância no sentido positivo de se propor uma perspectiva de um horizonte de organização unitária dos trabalhadores. Então, me parece que a própria ideia de uma conferência da classe trabalhadora seja um grande avanço em termos de unidade do movimento sindical, e que esse avanço tem dois desdobramentos possíveis a curto prazo. Um de dar mais dinâmica à defesa dos direitos dos trabalhadores diante de uma tendência muito forte em que a crise está se agravando, quando observamos o que está acontecendo lá fora. Estou falando da crise financeira global e agora a crise da divida soberana. A crise do euro é uma tendência da precarização do contrato de trabalho. Da precarização, portanto, das condições de emprego, e, por outro lado, a reestruturação e desmonte do sistema de proteção social.

Então, o primeiro elemento fundamental é que esse processo de unificação dos sindicatos para representar e mobilizar a classe trabalhadora como um todo, através das centrais. É um grande avanço para enfrentar, pautar diferentemente desde o ponto de vista operário o que está acontecendo por causa da modernização e não apenas, principalmente, por causa dos problemas de subdesenvolvimento. A precarização hoje do trabalho vem pela modernização. Outro elemento importante é o fato de que a plataforma  discutida e lançada nessa reunião tem como segundo desdobramento à defesa e aprofundamento das conquistas desses últimos oito anos de governo. Um governo que conseguiu bons resultados apesar da sua moderação e das limitações ligadas aos equilíbrios de coalização política e aos constrangimentos macroeconômicos. O fato é que se conseguiu praticar uma mudança fundamental em relação à questão da agricultura familiar, no acesso ao ensino superior, à política de cotas, às politicas sociais e também à politicas ligadas as questões dos direitos humanos e da luta contra o preconceito sexista, etc.


André Lobão: Quais os desafios que devem ser enfrentados atualmente e quem na verdade percebe e é beneficiado por essas mudanças, são os mais pobres?
Giuseppe Cocco: me parece que essa conferência da classe trabalhadora por um lado recupera a tradição do movimento operário, mas também se abre  aos desafios de um novo conceito do trabalho que não está apenas dentro das grandes indústrias. Que não está mais dentro da relação assalariada de emprego, mas está também na sociedade. E, portanto, diz respeito à uma nova relação de política econômica e politica social, que diz respeito na valorização do salário mínimo, à proteção do trabalhador mesmo quando ele está na condição informal, quando se trata de um pobre que vive trabalha e produz nas favelas, nos bairros pobres. Na verdade, essa é a condição da maioria do proletariado brasileiro que vive nas grandes metrópoles.   

André Lobão: No embate entre capital e trabalho, o trabalho historicamente sempre foi desfavorecido, isso até pela atuação da grande mídia. Hoje em tempos de crises econômicas e financeiras podemos dizer que o trabalho como conceito está revigorado e ganha força?  


Giuseppe Cocco: Tem duas coisas com relação à crise que temos que levar em conta. Em primeiro lugar, o fato que ela no Brasil teve um impacto diferente. Aqui se consegue enfrentar a crise e é criado um horizonte de crescimento diante da fraqueza das economias centrais como Europa, Japão e EUA. Digamos que no desenvolvimento da crise o discurso neoliberal sobre essa transformação do trabalho,emprego,empregabilidade e custo de transação com a dinâmica das finanças parece ter fracassado. Então, uma das alternativas possíveis que aparecem, mas que deve ser trabalhada pelos movimentos dos trabalhadores, no sentido amplo, dentro e fora da relação salarial, dentro e fora da relação de emprego, diz respeito ao fato de que o trabalho volte a ficar no centro de uma retomada do desenvolvimento. Há um horizonte de politicas públicas em que é possível pensar que se desenvolvam e que indiquem essa nova centralidade, que transformem essa nova centralidade social e econômica do trabalho em uma nova centralidade politica capaz de produzir uma nova esfera e  se reafirmar em um possível horizonte pós-capitalista.           



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