sexta-feira, 9 de agosto de 2013

"Eles são a favor do niilismo"

O Cientista Político, Wanderley Guilherme dos Santos, ex-presidente da Casa Rui Barbosa, critica os atuais protestos no Brasil e afirma que o movimento foi desvirtuado, sendo apropriado por grupos antidemocráticos. Em entrevista realizada para o programa de rádio A voz do Trabalhador da CUT/RJ, ele foi bem taxativo na leitura sobre o atual momento de protestos no Brasil e cobra união das esquerdas.


André Lobão: Prof. Como avaliar a continuidade das manifestações do último mês de junho no Brasil?

Wanderley: Esses movimentos ainda estão em fluxo e desde o início já sofreram algumas modificações de sentido, e até se dividiram em formas e orientações distintas. Mas no essencial, eu creio que houve certo desvirtuamento da solidariedade inicial que o pessoal do Passe-livre desenvolveu. Ele está sendo aproveitado por grupos antidemocráticos que agora usam as bandeiras populares legítimas, para evidentemente atacarem as instituições representativas do país.

André Lobão: é certo dizer que a esquerda brasileira perdeu o rumo?

Wanderley: Não acredito que tenha acontecido isso. Neste momento, o contexto, o clima das manifestações, é nitidamente antidemocrático, e nesse sentido uma série de acusações e criticas que os movimentos sociais históricos de esquerda vinham e vem fazendo às instituições representativas sempre fizeram, adquirem agora um significado contrário à intenção dos movimentos de esquerda. Hoje, o contexto político nacional é direitista. As criticas, objeções e depredações do parlamento, dos partidos e sindicatos representa nitidamente um comportamento reacionário. Somar a essas críticas neste momento me parece contraproducente. O que não significa que os movimentos históricos da esquerda tenham perdido o rumo.  Acho que atualmente existe uma confusão muito grande entre as bandeiras mais disparatadas. Tem muitos gatos sendo vendidos por lebres, enquanto questões fundamentais para o país como, por exemplo, as licitações, leilões que estão para serem realizados e que são cruciais para o continuado desenvolvimento nacional, a continuidade das políticas sociais, educação, saúde e distribuição de renda, estão emperradas. O fato é que os investidores e empresários só pensam em aumentar o que podem as suas taxas de retorno, dificultando assim decisões seríssimas para o Brasil. Enquanto isso, estamos preocupados com a substituição da legislação eleitoral, como se ela fosse responsável pela miséria do país. Isso é falso, nós estamos perdendo a perspectiva no momento.

André Lobão: E o papel da grande mídia nesse processo?

Wanderley: Está representando o seu papel de sempre que é de desinformar, desorientar e, principalmente, em não cobrir uma pauta efetiva de interesse da população. Eu te dou um exemplo: recentemente o ex-ministro Francisco Lopes, que é um economista de centro, escreveu um artigo mostrando como na realidade o país vem crescendo e que, portanto, o noticiário dos analistas, inclusive os de esquerda, está totalmente equivocado. Constrói-se um clima de catástrofe em relação à economia brasileira. Há um momento muito difícil no Brasil de hoje em que as forças de esquerda estão desunidas, estão batalhando entre si. E não me parece que estejam com uma pauta apropriada.

André Lobão: Podemos fazer uma comparação com que está acontecendo hoje e em 1964, nos momentos que precederam o golpe militar, quando o Presidente João Goulart sofreu uma grande pressão pela implementação das reformas de base?

Wanderley: Em certo sentido sim, porque todo período de grandes transformações ou de intenções provoca uma mobilização das forças conservadoras. Aconteceu isso no período de Jango, todavia, àquela época, as propaladas reformas de base eram mais slogans do que propriamente projetos. Não havia um foco realmente de um projeto já estruturado, o que não é o caso de agora. Os analistas conservadores estão entrando em um barco de que o governo está sem planejamento e projeto, isso não é verdade. Há uma empresa de logística nacional com projetos e planejamento para as grandes áreas de infraestrutura, que é o grande nó do país. Então, nesse sentido, a situação atual é mais crucial até do que antes. Porque sem destravar esse nó, sem manter as riquezas nacionais do petróleo, que está em jogo, a nossa soberania, a situação fica bem pior.

André Lobão: Essa questão das novas tecnologias e de sua utilização nessas mobilizações, como o senhor avalia isso?

Wanderley: Isso é um universo inteiramente novo e em expansão, que ainda não está assentado. Não há ainda modos e formas se isso estritamente tenha uma participação produtiva e na vida das sociedades em geral. Já são várias as publicações internacionais apontando para esse fenômeno de anônimos. O fenômeno de bandos absolutamente incapazes de serem identificados ou prevenidos, ao mesmo tempo em que essas mídias são formas alternativas de escapar ao controle das informações que a imprensa tradicional mantinha. Mas também, por outro lado, é a possibilidade da difamação, difusão do ódio e incitação da violência como estamos tendo no Brasil no momento.

André Lobão: Não existe propriamente uma identificação ideológica desses grupos como sendo fascistas ou anarquistas, por exemplo?

Wanderley: Nós temos já identificados pelas manifestações, que são expressas e pelo comportamento, niilistas. São pessoas sem orientação que são absolutamente contra tudo. Então, nisso tudo há fascistas, neonazistas que querem violência, sangue... Há todo tipo de gente e grupo. As manifestações de agora contam com um número bem menor do que as iniciais em junho. As pessoas de bem e solidariedade que participaram daqueles atos iniciais já se afastaram. Hoje são 100 e 200 no máximo que se reúnem em lugares específicos para provocar confusão e baderna. Eu nunca vi movimento democrático que difunda o medo e ameace fisicamente as pessoas que divergem. Que democracia é essa? É preciso ver que mudou muito o conteúdo dessas coisas.

André Lobão: E o caso Leblon?

Wanderley: Ah, o caso Leblon... Os meninos do Leblon, que são todos abastados, estão indo para lá para fazer esse tipo de coisa. Eles participam embutidos dentro das manifestações em facções e gangs de bandidos mesmo e traficantes. Eles sabem disso e não são inocentes. É evidente que existem os incautos, ingênuos naquele altruísmo natural de qualquer jovem, mas o núcleo que convoca, mobiliza e organiza, que já sabe inclusive que não deve levar mochilas para não serem revistados pela polícia, é o mesmo que arranca pedras das calçadas e começam os tumultos. Eles não são a favor de nada, do povo e democracia. Eles são a favor do niilismo. 

André Lobão: Que perspectiva enxergar nesse cenário?

Wanderley: Muita água vai rolar debaixo dessa ponte. Porém, o caminho se apresenta difícil. A direita radical que está mobilizada não vai se desmobilizar, vai ser um período complicado. Mas não acredito que o contexto atual permita uma avaliação ou previsão do desenlace eleitoral de 2014.   


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