quinta-feira, 15 de agosto de 2013

" O bom jornalismo, aquele que costura as ideias e esclarece o leitor, ainda é parte do processo"

Paulo Salvador, diretor  (Foto:Regina)
Paulo Salvador é um jornalista com anos de militância no movimento sindical e reconhecidamente, um profissional identificado com a comunicação democrática e popular.
Atualmente ele é diretor da Rede Brasil Atual, um grupo de mídia que agrega rádios, site e uma revista. Brevemente, a TVT, a TV dos Trabalhadores, sediada em São Bernardo do Campo/SP, vai se incorporar a rede. Em uma entrevista concedida ao programa A Voz do Trabalhador da CUT-RJ, eu conversei com ele.

André Lobão: Paulo como surgiu a Rede Brasil Atual?

Paulo Salvador: A rede existe há sete anos. Desde a luta pela democratização, no fim da ditadura, tivemos inúmeras conquistas políticas e sociais como a reorganização partidária, das centrais sindicais, mas infelizmente tivemos poucos avanços no campo da mídia democrática popular. Os jornais alternativos foram praticamente destruídos com ataques de bombas em bancas no final da ditadura, e poucos sobreviveram. O movimento do mundo do trabalho, os movimentos sociais e os sindicatos sempre foram muito criminalizados e nunca puderam confiar na grande mídia, no ponto de vista da qualidade da informação e também do enfoque. Os sindicatos têm uma tradição de produzir os seus jornais, mas tudo fica muito fechado, com uma linguagem muito localizada, direcionada só para uma categoria. Daí um grupo de profissionais jornalistas, dirigentes sindicais e personalidades se juntou, parando de reclamar da velha mídia, e resolveu fazer uma revista, que é a Revista do Brasil. Nós já tínhamos um programa de rádio. Esse programa foi melhorando, virou um noticioso e conseguimos três concessões de rádios que já adquiriam o nosso conteúdo. Criamos um portal que registrou mais de 800 mil acessos nos meses de junho e julho, últimos. Enfim, assim nos constituímos em uma rede que é a Brasil Atual. Agora, nós temos uma novidade que é a integração com a TVT, a TV dos Trabalhadores, que brevemente contará com um canal aberto aqui na cidade de São Paulo. A proposta da Rede Brasil Atual é o enfoque na democratização de mídia, dar voz a quem não tem; valorizar o mundo do trabalho, os movimentos sociais e a luta política para a construção de um Brasil novo.

André Lobão: Podemos dizer que as novas tecnologias já foram apropriadas pela comunicação alternativa e popular na abordagem sobre mundo do trabalho?

Paulo Salvador: Eu fiz uma pesquisa e verifiquei que os principais sindicatos no primeiro semestre tiveram 60 % de acessos dos seus conteúdos, produzidos por suas bases, a partir das ferramentas de novas tecnologias como a internet e as mensagens de texto, o SMS. Já foram organizados movimentos de greve através de torpedos cadastrados, como os movimentos de rua fizeram recentemente no Brasil. Então, essas ferramentas também já estão nas mãos dos trabalhadores. No caso da rede isso também é visível, ou seja, tudo que ocorre no mundo da comunicação, das conquistas estamos trilhando. Isso vai desde a qualidade das fotos e a interatividade. O envio e recebimento de vídeos e as narrativas diretas. Mas mesmo com toda essa tecnologia ainda vemos a necessidade de termos bons textos, boas fotos, afinal um bom jornalismo. Então, esse mundo atual, que não vou nem mais chamar de moderno, está presente nessa luta pela construção de uma plataforma de rede voltada para o mundo do trabalho e movimentos sociais.


André Lobão: Paulo, como você avalia o Brasil pós-manifestações?

Paulo Salvador: Nós aqui ajustamos a nossa linha editorial a cada dia, a cada momento. Eu pessoalmente estive em várias manifestações e pelo facebook fui disparando vários comentários. Eu acho que a grande sacada do Brasil Atual foi em não desdenhar dos movimentos desde o primeiro momento. Quando a agitação começou no Passe-Livre, eu fiz um levantamento das capas de revista e verifiquei que de 80, 45 falavam de Copa, construção de estádios, transporte e apagão de transporte. A garotada do MPL já havia sido capa da Brasil Atual, a questão da corrupção… Enfim, a maioria dos temas e problemas que foram para a rua nós já tínhamos abordado em edições e reportagens anteriores. Então, demos voz ao movimento e fazendo, claro, criticas aos governantes que não estavam sensíveis, mesmo o Brasil tendo avançado uma barbaridade. Eles na verdade estavam fazendo uma política de planilha: "olha, o Brasil cresceu tanto, assim”… Mas eles não estavam ouvindo e nem vendo o que de fato acontecia nas ruas. Eu mesmo ando de ônibus, de transporte público apesar de ter carro. Certo dia eu disse ao pessoal do meu bairro: "se acontecer uma manifestação dessas com quebradeira aqui, me chamem. Pois estou junto com vocês"… Não é possível nos dias de hoje que as pessoas sejam transportadas como gado. Também condenamos quando a própria Globo tentou organizar a coisa a partir do ponto de vista do combate à corrupção contra o governo federal, ou seja, soubemos navegar bem em águas tão turbulentas e de alguma forma crescemos nesse processo todo. Óbvio, ocorreram alguns erros por termos feito algumas coisas de forma apressada e afobada, mas no geral os erros e acertos estão nos ajudando na construção da rede.

André Lobão: A grande mídia está preocupada com o crescimento da mídia livre, e isso é um fato inegável. A visão sobre os trabalhadores e os movimentos sociais já começa a mudar a partir disso?


Paulo Salvador: Eu fiz um texto no meu facebook no qual eu comemoro uma colega da equipe, a Camila, que fez um vídeo de uma manifestação no dia 14 de julho. Nesse dia percebemos a tentativa de montagem de uma cena em um protesto por parte do pessoal da Globo. Depois essa menina fez uma gravação de quase duas horas e meia da reunião do Mídia Ninja. Essas produções se apresentam como narrativas diretas. Esse material fez o maior sucesso com mais de 80 mil acessos. Eu fiquei encantado e comecei a refletir: "vamos lançar mão disso"… Logo depois tivemos dois jornalistas nossos que fizeram mais um vídeo sobre os Ninjas e de um debate com o Prefeito Haddad num sindicato, que transmitimos de forma direta. Ao assistir essas transmissões ao vivo, com essa narrativa direta, me pareceu que houve uma diluição da informação. Sim, ela tem um aspecto bem bacana da denuncia, do estar ali em tempo real, sem intermediação… Porém, o bom jornalismo, aquele que costura as ideias  e esclarece o leitor, ele ainda é parte do processo. Essa narrativa nova vai fazer com que apuremos com uma maior qualidade, ou seja, melhor e mais fiel, mesmo nas atuais formas tradicionais. Agora, existe uma luta política na questão da sobrevivência dos grandes jornais. De certa forma eles se comportam como partidos que funcionam a partir do controle de seis famílias neoliberais. Por outro lado, no momento, todos vem essa briga contra o pessoal do Mídia Ninja e o Fora do Eixo, que na verdade é uma briga de relevância política localizada. Mas acho que existe da nossa parte uma dianteira em termos de produção. A mídia livre, a mídia mais à esquerda, solidária, a que mais emancipa as pessoas, tem mais criatividade apesar de ter menos recursos, mas consegue ocupar esse espaço. Eu acho que essa briga com os grandes vai demorar mais uns 20 anos, mas vamos construir novas plataformas de comunicação. Alguém diria que há anos atrás o Jornal do Brasil iria sair de circulação? E ele saiu. É possível sim acreditar. A grande mídia tomou uma sacudida por conta da perda de audiência e leitores, e daí podem desaparecer grandes jornais e emissoras de TV. É a luta do conteúdo, e obviamente que é uma luta política também. Eles atacam os gastos públicos com previdência, mas na verdade eles querem usufruir desse dinheiro como verba publicitária, essa que é a verdade.

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