sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

2013, o ano que não vai acabar...

Imagem captada por Virgilio Gomes

2013 foi certamente um ano marcante em termos de mobilização e cidadania. A partir de junho o povo tomou conta das ruas em meio a realização dos protestos iniciados pelo Movimento do Passe Livre - MPL, em todo o Brasil contra o aumento das tarifas de ônibus. Na seqüência dos protestos, a partir do dia 20 de junho, o tema das passeatas não era só a majoração das passagens. Os gastos com a realização da Copa das Confederações FIFA 2013, e a precariedade dos serviços públicos como saúde e educação, principalmente, deram combustível aos protestos que se estenderam até meados de outubro. As principais constatações, além da volta do povo às ruas, foram o surgimento do movimento ou tática Black Bloc e o despreparo  das forças de segurança de todos os estados na repressão aos protestos. 

Acompanhei uma grande quantidade de passeatas. Em 15 de outubro, dia do Professor, presenciei mais um protesto. Em parceria com a Jornalista Clara Araújo, do Criar Brasil, produzi um vídeo sobre aquele dia. Desse material fizemos uma edição de reportagem em texto que está disponível na Revista Fórum. Bom, abaixo você pode conferir a reportagem.



Mais um dia de manifestações nas ruas do Rio de Janeiro. Na caminhada entre a Lapa e a Candelária, lojas fecham suas portas e pessoas saem mais cedo do trabalho num misto de alegria e desconfiança sobre o que virá a seguir. Tapumes são colocados nas portas dos bancos. Policiais estão enfileirados em vários quarteirões.

Tudo demonstra que as coisas continuariam sendo exatamente como vinham acontecendo desde o início das manifestações na cidade, em junho. Desta vez, o movimento não é mais pelos vinte centavos. Mas sim, a já clássica luta de professores municipais e estaduais por melhores condições de trabalho. Junto disso, revolta pela ação policial ao longo das manifestações. Se houvesse um hino para a repressão, poderia ser a primeira frase do funk de Valeska Popozuda: “Aqui é tiro, porrada e bomba”.

Apesar da apreensão que multidões cercadas pela polícia sempre causam, a chegada à Candelária é tranquila. Por volta das 17h, professores, vendedores ambulantes, policiais, jovens Black Bloc e muitas, muitas pessoas com câmeras fotográficas e de vídeo, se misturam a voz que já começa a sair do carro de som. É o começo da passeata. E tudo parece, até ali, uma massa única, da qual a maioria se orgulha em fazer parte.

Não sou Black Bloc

Máscara no rosto, cabelo moicano estilo Neymar, na cabeça e 17 anos de idade. “Você é Black Bloc?”, perguntamos. “Não. Eu sou do movimento punk”, responde “Mancha”, um garoto franzino de Campo Grande, Zona Norte do Rio. Cercado de amigos que formam uma espécie de time ao redor dele, Mancha afirma que, nas quatro manifestações que participou seu intuito nunca foi o de depredar o patrimônio ou atacar a polícia. “Nós fazemos sempre uma passeata pacifica. Quando nós quebramos, reivindicamos. Quando vamos contra eles, quando tacamos paus e pedras, é porque a gente está se defendendo”, explica. Anarquista, Mancha diz não tirou seu título de eleitor.

Em sua análise, um dos grandes problemas da política brasileira é o movimento midiático que vem em torno dela. “A única coisa que eles sabem é colocar a mídia sensacionalista como a Globo, Band e todas essas mídias para influenciar as pessoas e acabar com a sua ideia (sic). As pessoas vão porque querem. Mas nós viemos para resistir. Nós somos uma parte pequena”.

Perguntado se ele acredita no Brasil, Mancha não hesita em responder: “Eu não acredito no Brasil, eu não sou nacionalista. Eu acredito no povo, eu acredito na nossa resistência”. Fim de entrevista e o garoto de Campo Grande segue a multidão: cercado dos amigos, máscara no rosto, moicano na cabeça e com apenas 17 anos de idade.

Guerra Fria

Do outro lado da Candelária, Renato Fialho conversa com amigos sob o coro das vozes que ecoam cada vez mais na concentração da passeata em meio ao caótico trânsito na confluência da Av. Presidente Vargas com a Av. Rio Branco. Com uma camisa vermelha estampando as letras CCCP, iniciais em russo da antiga União Soviética, o professor do estado Renato Fialho é mais um descontente.

Desconfiado, ele recebe um pedido para um depoimento. Sociólogo, ele é freudiano ao explicar o contexto da insatisfação coletiva dos dias de hoje. “Existe hoje um mal-estar geral na sociedade causado pelas políticas neoliberais. Essas políticas estão avançando de uma forma muito forte no mundo inteiro e acho que o Brasil não é a exceção.” – afirma.

Em seguida, Renato recorre ao velho fantasma da Guerra Fria. “Os EUA têm mais de mil bases militares espalhadas no mundo inteiro, por quê? Para que tanta violência ou tanta ameaça pairando sobre o planeta inteiro? A gente está à beira de uma guerra nuclear.” – diz em tom alarmista.

Para o professor, 2014 será um ano chave no caldeirão partidário e político do Brasil. “Com a Copa do Mundo é óbvio que o clima vai se acirrar. Vem um ano eleitoral, então há interesses eleitorais também dos partidos, muitos partidos que estão aqui só estão por causa da eleição. Agora, eu acho que devemos ser inteligentes quanto povo para não permitir nenhum tipo de manobra dos eleitoreiros e nem dos que estão no poder a 510 anos, que querem impedir que a gente continue nas ruas.” – conclui Fialho, que dá aulas há 10 anos no ensino médio carioca.

O cortejo cidadão e diverso segue rumo à Cinelândia com gritos de ordem e cantos: “Ei Cabral vai tomar no C...”. Há até uma bandinha do tipo charanga tocando mambo, marchinhas. Portando trompetes, saxofones, tumba e tarol, entre outros instrumentos, seus músicos animam e dão o tom na marcação alegre dos protestos.

No meio da multidão Na imensidão da calçada, na Avenida Rio Branco, muitos passam e param para ver e aderir à passeata. Trabalhadores do comércio, office-boys, secretárias, gente de todo o tipo. O advogado Mauro Marques é um deles. Reflexivo ele faz um diagnóstico sobre o perfil de quem vai às manifestações. “São pessoas de classe média, ou ainda que não componham a classe média têm um nível cultural mínimo. Os governantes ainda detêm uma grande influência sobre as grandes massas excluídas, e esses ainda não estão participando das manifestações.” – disse refletindo sobre a ausência do “povão”.

Marques é confiante na mudança do cenário eleitoral e politico em 2014. “Eu espero uma reviravolta muito grande nas eleições. Sem dúvida haverá uma mudança no quadro eleitoral em 2014. A classe politica que se perpetua no poder a longo tempo terá surpresas no pleito de 2014” – fala com espirito de mudança.

Samba, manifesto e futebol A passeata é a favor dos professores e da educação, mas as faixas e cartazes sobre outras reivindicações começam aparecer em profusão. Tem até gente reclamando do seu time de futebol, no caso, o Vasco, que vive atualmente o drama de um novo possível rebaixamento no campeonato brasileiro deste ano. O “Fora Dinamite, eu quero um Vasco de verdade” é mais um desses cartazes empunhados em meio a tantos outros. O surreal fica engraçado no contexto da seriedade da manifestação, faz parte...

Se tem o bloco negro para proteger a manifestação, tem também os defensores do bloco do cassetete, bomba de efeito moral e da ordem do estado. Ela chega de mansinho, maquiada e com brincos grandes no formato de argola. De roupa azul, carrega um cartaz da mesma cor escrito apenas “PEC 300”, a Proposta de Emenda à Constituição que propõe igualar os salários dos militares estaduais de todo o Brasil (ativos e inativos) aos salários dos militares do Distrito Federal, trazendo assim isonomia aos profissionais que desempenham a mesma função. Maria Helena se apresenta como viúva de um oficial da Polícia Militar do Rio. Pede pra falar, quer mostrar que está indignada com a repercussão contra a PM do Rio sobre os confrontos com os Black Blocs. “A categoria está sendo massacrada pela população e por falta de informação. Tudo isso por causa dos Black Blocs e também por vândalos que estão aderindo às passeatas. Os policiais querem trabalhar, o próprio movimento da PEC é muito injustiçado.” – diz afirmativa e quase chorosa.

Black Bloc é lindo

Final de caminhada. Na Cinelândia, em frente à Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, muitas pessoas ocupam a praça. Um vai e vem de gente e a sensação de que, dali, não há muito para onde fugir. Black Blocs se enfileiram nas escadas da Câmara como se protegessem a “casa do povo”. Sobem nas janelas, hasteiam bandeiras e estendem faixas. Não há policiais. Mas há defensores da causa indígena, jornalistas, um grupo de teatro que faz uma intervenção silenciosa. No meio deles todos, Alexandre Rozemberg, músico. Alexandre, que observa a concentração dos Black Blocs com um amigo, começa nossa conversa dizendo: “Acho lindo isso aqui” e aponta para as escadarias da Câmara tomada por garotos e garotas, todos de máscaras. Para ele, a beleza e a importância do movimento Black Bloc está no fato de, ali, haver causas que vão além das pedidas por faixas e cartazes das manifestações. “A impressão que eu tenho é que eles estão lutando por uma coisa de vida, lutando contra algo que eles não aguentam mais. Eles lutam contra essa coisa opressora que é a sociedade. Por isso que eles quebram os símbolos que eles acham interessantes”, diz, quase encantado com o que vê.

Para 2014, a previsão do músico não é das melhores. Com a Copa do Mundo, ele acredita que as manifestações vão se intensificar. “Isso porque a Copa vai acontecer de qualquer jeito. E o povo vai para a rua, custe o que custar”. Cigarro aceso, Alexandre puxa o amigo e diz: “Fala com ele. Ele vai saber o que dizer”.


Desafiante O amigo em questão é o também músico e professor de História Thiago Santos, 27. Tímido, apesar de frequentar palcos e de estar acostumado a falar para plateias (de alunos), Thiago reluta em falar. Mas cede ao papo. E quando fala, o professor faz um balanço quase sociológico do que faz toda aquela multidão sair às ruas tantas vezes, mesmo com toda a violência implantada pela polícia nas manifestações. “O Rio de Janeiro tem uma tradição em protestos de rua e, junto a isso, o governo do Rio é um governo muito peculiar. Principalmente na questão do autoritarismo. E eu acho que esse autoritarismo acaba agregando a população contra o próprio governo”. Para Thiago, o que estamos vivendo na cidade já gerou mudanças práticas no cotidiano. “As pessoas falam de política o tempo todo agora”, reflete. 

E, assim como Alexandre, Thiago se coloca a favor dos Black Bloc. “É muito complicado falar dos Black Blocs. Mas o que eu posso dizer é que muito da raiva que eu tenho do estado, do que o estado faz comigo, está nas pedras que os Black Bloc jogam”. E o professor emenda: “Eu gostaria de ver alguém ir a uma emissora de TV e falar do vandalismo que o estado faz com o bolso do professor, com a educação das pessoas. Eu já tive alunos no oitavo ano do ensino fundamental que nunca tinha tido aula de história. E, para mim, isso é vandalismo”. Quando pensamos que a conversa acabou com Thiago acabou, ele pede para falar mais um pouco: “A mídia está emanando esse mantra do vandalismo e da destruição da cidade, mas eu acho que as pessoas têm que analisar direito o que está acontecendo. Por isso eu desafio qualquer professor de história a vir na mídia e falar que os franceses que lutaram por igualdade, liberdade e fraternidade eram vândalos e que estavam fazendo uma coisa ruim para a sociedade. Vândalo é o estado!”. E aí, quem dá mais?
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