sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Copa do Mundo e Olimpíada: Os cartéis mandam no jogo

O Professor Paulo Capela é membro do IELA e um dos coordenadores do Vitral – Observatório Latino-Americano de Educação Física, Esporte e Saúde/ CDS/UFSC . Ele participou de uma pesquisa que fez um comparativo entre os custos de construção de estádios no Brasil para a Copa de 2014 e do mesmo evento ocorrido na África do Sul em 2010. “Uma lição vinda da África do Sul”. Confira o papo.

André Lobão: Como foi a sua pesquisa sobre a Copa do Mundo e os grandes eventos esportivos no Brasil e qual a relação deles com que aconteceu na África do Sul durante a realização da copa de 2010, quando ocorreram problemas de acréscimo nos custos de construção dos equipamentos e infraestrutura?

Paulo Capela: Desde 2005,  a gente começou a perceber que esse movimento de trazer esses megaeventos para o nosso país é antipopular, e daí nós começamos a nos organizar. Nesse momento, essa nossa relação com a África do Sul é uma ação de todo um gigantesco movimento que fazemos a partir da universidade que trabalho (UFSC), no sentido de esclarecer nossa população e as demais populações do planeta sobre esse modelo FIFA-COI de promover eventos pelo mundo afora. Queremos mostrar que isso é uma apropriação econômica-capitalista, antipopular dos esportes cujo tema é apenas uma cereja do bolo. O fascínio que o esporte produz sobre as populações faz com que eles se aproveitem disso para fazer, digamos, grandes saques econômicos sobre os países que sediam esses eventos. Então, esse é o eixo que faz com que a gente se aproxime de pesquisadores da África do Sul. Nós começamos uma interlocução com o Eddie Cottle, um pesquisador, que foi uma pessoa muito ativa na organização de 70 mil trabalhadores sul-africanos através do slogan “Salário digno para os construtores da infraestrutura da Copa do Mundo”. Ele nos visitou em abril de 2013, proferindo uma conferência junto às Jornadas Bolivarianas que é o principal evento anual do Instituto de Estudos Bolivarianos, o IELA. O Eddie Cottle voltou depois em julho para disponibilizar a tecnologia utilizada para desvelar esse evento econômico que produziu muito dano na África do Sul. Daí, neste momento, começamos uma pesquisa para saber como está se materializando essa questão aqui no Brasil. E, então partimos de alguns pressupostos que os sul-africanos já tinham acumulado.


A primeira coisa que começamos entender é que existe um grande cartel mundial da construção civil e da madeira, a partir disso ele nos traz alguns indicativos. Foi levantado pelo comitê de concorrência e organização, que é um órgão de cooperação e desenvolvimento da África do Sul, a existência de um cartel do cimento. Existe também uma pratica histórica da construção civil de promover carteis, superfaturamentos, comprar funcionários públicos e colocar dinheiro cobrado a mais em contas pelo mundo afora. E aí percebemos que está acontecendo à mesma coisa aqui no Brasil a partir dessa nossa pesquisa. Então, esse é o pano de fundo. Nós observamos que é uma pratica comum da FIFA, quando o país sede ganha o evento, divulgar para a população que o custo desse evento vai ser um, mas acaba depois sendo anunciado um valor muito superior. Por exemplo, na África esse valor em 2010 foi dez vezes o valor acima do indicado, quando do contrato assinado como país-sede. E no Brasil, essa história está se repetindo. Nós fizemos um levantamento sobre o custo das arenas que identificou que elas já estão três vezes e meia mais caras do que ao primeiro custo anunciado no momento da assinatura dos contratos.

André Lobão: Quando a FIFA começa a operar um contrato com um país - sede, ela traz nesse bojo todo um círculo de escritórios de arquitetura, fornecedores, entre outras empresas indicadas como especializada, a sua pesquisa aborda essa questão?

Paulo Capela: Nós podemos levantar duas questões. Primeiro: existe uma expectativa que vá se gerar um fato econômico que pode beneficiar o país-sede, no caso o Brasil, e isso não é verdade. Nesse pacote que eles encaminham aos congressos nacionais dos países é proposta uma legislação própria em que se cria um estado de exceção. Esse estado gera para essas empresas que participam desse conluio uma série de isenções fiscais, ou seja, elas entram em um sistema fiscal diferenciado e ameno. Então, o país perde receitas com as obras que acontecem. O segundo ponto é que todas essas obras, e aí estamos começando a investigar é que nesse pacote, vêm essas empresas que entram nesses países-sede e que elas detêm uma determinada tecnologia. É alegado que essa tecnologia é a adequada para a construção daqueles equipamentos arquitetônicos, e aí nesse momento chegam as empresas que são multinacionais. No caso do Brasil e da África do Sul são empresas de construção. São de países europeus como Alemanha, Itália, França e Holanda. Essas empresas como detêm essa tecnologia, que teoricamente apontam que não existe equivalência em nosso país de equipamentos, acabam por fazer obras superfaturadas. Então, se você pegar o equivalente a uma obra dessa realizada no Brasil elas chegam a custar 3,4 vezes o preço que custariam se fossem executadas por empresas daqui. Daí eles trazem essas empresas, superfaturamento, deslegitimam as tecnologias do nosso país, e ainda são beneficiadas com isenção de impostos. Quer dizer: o país não ganha, o estado brasileiro não ganha, e também o povo não ganha de forma nenhuma. E, por fim, não há uma transferência de tecnologia nesse processo..

André Lobão: O consórcio é um disfarce do cartel?

Paulo Capela: Os consórcios são sim cartéis disfarçados, e essa é uma prática muito comum. As empresas se reúnem em escritórios que não são espaços públicos, e definem quem vai fazer tal e qual obra. E a partir disso, as licitações quase que são direcionadas para empresas que têm essa pratica de cartel. Eles simplesmente se revezam em tal obra, naquela que tem um valor um pouco superior, e em outra  com um preço pouquinho abaixo. Então, eles vão combinando entre si qual é que vai ser a ganhadora da obra com esse superfaturamento. Desta forma, essa pratica de cartel toma uma vultuosidade muito maior do que acontece normalmente em nosso país.

André Lobão: No Rio de Janeiro esse tema está sendo bem discutido. Você sabe que o Maracanã passou por três grandes reformas e o custo total disso deve chegar a dois bilhões de reais. Além disso, temos o caso da construtora Odebrecht que em consórcios está participando em 10 empreendimentos, tendo inclusive participado do consórcio que reformou o Maracanã e agora participa de outro de concessão que administra o novo estádio. Qual a sua avaliação em relação a essa situação?

Paulo Capela: Isso é uma imoralidade. A empresa já ganha o financiamento público, ganha a concessão por 35 anos. Eles ganharam essa licitação tendo que pagar aproximadamente um bilhão de reais em parcelas, mas eles tem projeções que  esse equipamento vai gerar aproximadamente 14 bilhões. Isso significa, mais ou menos, que você recebe um financiamento. O governo dá gratuitamente para 10 mil trabalhadores, o equivalente a 50 mil reais para que eles construam sua própria casa. E aí o governo diz para eles: Vocês têm essa casa e agora podem por 35 anos alugar essas casas por um aluguel de 1.500 reais e diz que eles podem ficar com esse dinheiro. Então, observe a irracionalidade desse calculo econômico feito nessa concessão do estado para apenas uma empresa, isso é uma imoralidade. Distribui dinheiro público dos trabalhadores para as grandes empreiteiras, cuja função social seria de estar a serviço das obras estruturantes do estado, com seus devidos lucros, absolutamente determinados, no que eles fazem como função que é de serem construtoras civis, e não saquear o estado, como está acontecendo. Eles não têm konw how nenhum de como fazer a gestão de um equipamento público de esporte e lazer. Aquilo não é um shopping. É sim um equipamento público de esporte e lazer. No Brasil, existe o maior acumulo de discussão no campo dos trabalhadores sobre políticas de esporte e lazer, e com certeza não seria esse modelo de gestão que nós estaríamos oferecendo para a população do Rio de Janeiro.

André Lobão: Prof. Paulo podemos ter uma ideia do custo total do que está sendo feito no Brasil em termos de estádios e de toda essa infraestrutura que está sendo renovada?

Paulo Capela: Olha André nós temos estimativas. Como nós afirmamos no primeiro relatório produzido, estamos com dificuldades de levantar esses dados. É engraçado que no Brasil se fala muito em transparência, mas ela não é praticada. Então, estamos com muita dificuldade em ter dados concretos, mas existem estimativas que o custo final entre Copa do Mundo e Olimpíada, dadas por alguns economistas e empresas de consultoria, que isso gere um impacto direto e indireto de 112 bilhões de reais. Esse é o volume a ser gerado pela movimentação financeira. É obvio que isso aí move muito interesses. Estudos realizados indicam que um megaevento como esse mobiliza 1% do PIB do país. Então esses números indicam uma equivalência, mesmo que o governo diga que o valor é de 28 bilhões de reais. O interessante é que quando foi assinado o contrato da Copa do Mundo foi anunciado pelo Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF) que não haveria verbas públicas no processo. Hoje já existe um levantamento de que 75% dos valores envolvidos na construção dos equipamentos e das arenas são de fundo público. E de fundo público já sabemos qual é a tradição de devolução de dinheiro contratado por essas históricas empreiteiras no país.

André Lobão: No caso, esse dinheiro não vai ser só embolsado pelas empreiteiras, não é?

Paulo Capela: Olha, vão para vários setores conforme afirmam estudos oficiais para tentar mostrar, enquanto negócio, o que isso representa para todo o setor do nosso país. Desse jeito as empresas podem reposicionar os seus projetos frente a esses grandes recursos, circulando em uma grande janela de oportunidades, em um espaço de tempo muito pequeno.

André Lobão: Na pesquisa em que você participou existe uma atenção ao Rio de Janeiro, por conta da próxima Olimpíada?

Paulo Capela: Não fizemos nada em específico em relação ao Rio de Janeiro. Mas ouso dizer algumas coisas. Primeiro: Eu acredito que a gente não muda uma determinada sociologia que existe em nosso país que é a seguinte: o centro do poder fica em Brasília, a chave do cofre em São Paulo, e a produção de conteúdo cultural colonizador é no Rio de Janeiro. Esse modelo de sociologia em nosso país não sai desse padrão. O Rio de Janeiro está sendo reformatado para se tornar uma cidade mundial, com todas as características de uma cidade mundial, que não corresponde a estruturação de um tecido social popular que tem essa cidade. Ela vai sendo reconstruída para ser uma cidade de turismo histórico, de negócios e eventos. Agora, a perversidade desse modelo de cidade mundial, é que ela está sendo criada para a classe média alta, para os endinheirados do mundo, e não para as pessoas que desejam conhecer sua realidade profunda. A segunda perversidade nessa cidade é que não há moradia para os trabalhadores e as pessoas mais humildes e simples. Nós estamos dolorosamente vendo o sofrimento das pessoas que fazem do Rio de Janeiro o que ele é; uma cidade linda maravilhosa, uma expressão da forma de ser brasileiro. Então, isso está sendo absolutamente maquiado com o sofrimento da população. Uma população de trabalhadores que vai continuar sendo apartada como é hoje nas favelas. Essas pessoas que mandam no mundo, que produzem esses modelos de megaeventos e essas cidades só não conseguiram resolver uma equação: onde é que eles colocam essas pessoas trabalhadoras que fazem essa cidade?   

André Lobão: Prof. Capela e o trabalho do IELA, como é desenvolvido?

Paulo Capela: O Instituto de Estudos Latino Americanos, o IELA, tem como principio universitário produzir um pensamento próprio original e descolonizado. O Brasil tem sido formatado a partir das ideias eurocêntricas e americanas, e sabemos muito pouco sobre a própria América Latina. O IELA faz uma cruzada incansável para divulgar o horizonte a ser reconstruído a partir de novas teorias.

André Lobão: Essa parceria com os pesquisadores da África do Sul vai gerar mais alguma coisa em termos da realização de outras pesquisas?

Paulo Capela: Bom, nesse momento de megaeventos esportivos, a parceria feita com pesquisadores da África do Sul acabou por derivar outros projetos. Neste mês de dezembro será lançado um livro que retrata tudo isso que conversarmos nesta entrevista com uma análise sobre os megaeventos esportivos.  Também em janeiro de 2014, será lançado um livro produzido por 15 pesquisadores sul-africanos. Ele traz uma pauta bem interessante para entendermos o que está acontecendo no Rio de Janeiro e Brasil. O título é: ‘Copa do Mundo 2010: África do Sul, legados para quem?’, organizado pelo Eddie Cottle. É necessário que no Brasil surjam movimentos contra essa forma de organizar os povos a partir de eventos como a Copa do Mundo, Olimpíada, FIFA e Comitê Olímpico Internacional. Não é assim que se vai produzir solidariedade entre os povos. O que vamos presenciar no Brasil nesses eventos esportivos é a expressão máxima de suplício da vida humana de forma espetacularizada pela mídia. Então, não interessa nem no ponto de vista dos esportes. Nós no Brasil, ao contrário do que a mídia divulga, deveríamos nos orgulhar de não ter tantos atletas olímpicos quanto à elite brasileira deseja. Porque a forma de produzir um atleta olímpico é de um para um milhão de pessoas, como foi pesquisado nos anos 1970. Deste jeito só há exclusão, se destrói a vida das pessoas para produzir um atleta olímpico. Esse atleta é destruído pela máquina econômica (Copa e Olimpíada), ele é uma das expressões biológicas mais raras da espécie humana. Essa expressão biológica não deveria participar de eventos e competições comandadas por mãos e cérebros tão danificadores, como esses que aportaram aqui no Brasil. O meu sonho como professor de Educação Física é que em algum momento tenhamos uma Copa do Mundo solidária de futebol, com jogos olimpicamente fraternos entre os povos. Daí que nós pratiquemos de forma fraternal muitas atividades corporais.

André Lobão: Se esperava muito desse atual governo uma melhora na gestão do esporte no Brasil, não é?

Paulo Capela: O que me entristece muito é a não possibilidade de operar isso no ambiente de poder. Logo com um governo de esquerda nesse mesmo poder, no qual estão os principais pesquisadores da educação física que produziram uma tecnologia de qualidade. Eles não pensaram esse modelo Copa do Mundo – Olimpíada, que funciona na base do superfaturamento, que é na verdade um saque econômico. Não é isso que os idealizadores (Jules Rimet e Barão de Coubertin) da Copa e da Olimpíada pensaram ou imaginaram, definitivamente não é. O que discutimos são as dimensões inumanas do desporto. De uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, de como elas começaram a serem formatadas a partir dos anos 1990, elas perderam totalmente o sentido de confraternização dos povos. É eminentemente um produto de mercado, e como mercadoria alguém tem que pagar. E aí começa toda essa engrenagem econômica que corrói os estados e investimentos nacionais, infelizmente.



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