segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Presidente da ARFOC Rio responsabiliza Band por mortes de cinegrafistas

Alberto Jacob Filho - Pres. ARFOC Rio - imagem: Facebook
Alberto Jacob Filho é presidente da Associação Profissional dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro , a ARFOC Rio. Em conversa com o Radiotube, ele falou sobre o triste episódio da morte do Repórter Cinematográfico da TV Bandeirantes do Rio, Santiago Andrade, morto durante uma manifestação no último dia seis de fevereiro na Central do Brasil, atingido por um rojão.

André Lobão: Alberto Jacob, qual sua opinião como Presidente da ARFOC Rio sobre o incidente que envolveu a morte do Santiago?

Alberto Jacob: A primeira avaliação é com muita tristeza. Porque é mais uma vida humana que se vai, e que a gente não tem como reparar. Na verdade é o terceiro profissional morto em serviço. Em 2002 nós tivemos a primeira morte do Tim Lopes (TV Globo) daquela forma bárbara. Na segunda,  já dentro de um processo de avaliação que aprendemos com a morte do próprio Tim, que era o uso de equipamentos de segurança e o direito do profissional de se recusar a enfrentar situações aonde a vida dele estivesse em risco. Enfim, de alguma forma aquilo foi motivo para uma evolução. Pena que o equipamento do Gelson Domingues, o repórter cinematográfico, também da Bandeirantes , morto em 2011, usado em uma incursão policial era inadequado para aquele tipo de operação. Para relembrar, uma bala disparada por um bandido acabou atravessando o colete e matou o cinegrafista da Band. Então, eu vejo com muita tristeza que a população tenha ido as ruas reivindicar melhorias para sociedade como um todo e no meio dessa manifestação, legitima e verdadeira, surgiu um grupo que acabou se transformando em um grupo assassino que acabou levando a vida de um companheiro nosso, o Santiago Andrade.

André Lobão: Como fica a segurança desses profissionais no contexto do Rio de Janeiro, que sabemos ser uma cidade de inúmeros confrontos policiais e sociais?

Alberto Jacob: Como eu falei anteriormente, desde morte do Tim Lopes, o sindicato e a associação vêm reivindicando nas convenções coletivas de trabalho, junto com o sindicato patronal, que haja um conjunto de medidas para poder proteger esse profissional. Em primeiro lugar, esse mesmo profissional tem todo o direito de dizer: ‘Não vou subir o morro, no vou entrar nesse lugar, não quero fazer operação policial, pois a minha vida vai estar em risco.’ Sem que ele seja demitido por causa disso. Mesmo que um outro afoito vá sozinho faça a matéria e depois se torne um furo. Nós conseguimos que as chefias das redações passassem a ter isso como principio. Ou seja, o profissional tem o direito de recusar esse tipo de trabalho. Evoluímos também um pouco na questão de fornecimento de equipamentos. Observe o caso do Gelson Domingos. Ele tinha um equipamento de segurança, mas só que era inadequado. Era um colete de proteção contra bala, mas era para calibre 38 e não para munição de fuzil. Todos sabemos que os bandidos do Rio usam armamento pesado. Então é o seguinte: Nós queremos estabelecer, de forma definitiva, que os profissionais tenham o direito de se recusarem a entrar em situações de conflito quando se sentirem ameaçados. Que as empresas passem a fornecer equipamentos específicos com certificação para cada tipo de conflito, manifestação ou tiroteio. Outra coisa: o jornalista precisa se conscientizar que manifestação não é procissão. Procissão é um ato religioso em que todo mundo sai em paz e rezando, e, que, em uma manifestação com certeza vai acontecer um conflito. Esse profissional precisa se conscientizar do seu risco nesse tipo de reportagem. Portanto, não podem trabalhar de forma individualizada e isolados. É preciso trabalhar em grupo. Porque é mais fácil se proteger em  grupo do que ficar sozinho. A maior parte dos casos de agressão a jornalistas, em protestos, ocorreram pelo fato dos mesmos estarem isolados. E aí a polícia e o manifestante  aproveitam para agredir. Enfim, o que esperamos que como mais esse infeliz episódio consigamos criar um padrão de exercício profissional e de uso de equipamentos, e com isso impedir que novas mortes aconteçam.

André Lobão: Em dois anos a TV Bandeirantes teve dois profissionais mortos em conflitos. Alguma coisa está errada nisso, ela também deve ser responsabilizada?


Alberto Jacob: Isso, nós estamos falando desde o início. Na Bandeirantes ocorrem uma série de ilegalidades. Eles tem a terceirização de quase todo o corpo jornalístico. Ou seja, não oferecem carteira assinada para os seus trabalhadores. Os repórteres cinematográficos são contratados como operadores de estúdio, portanto como radialistas. E, por isso, não podem ir para rua para gravarem imagens externas. Isso aconteceu com o Gelson Domingos que apesar de ser repórter cinematográfico era contratado como radialista na função de operador de câmera que é uma função especifica para quem trabalha com entretenimento, e não faz jornalismo. Por que ele fazem isso? Para poder contratar com salario menor com jornada de trabalho maior. Já que jornalista tem carga horária fixada em cinco horas e radialista em seis horas. Além disso, exploravam os repórteres cinematográficos como motoristas dos carros de reportagem e às vezes até como iluminadores. Existe denúncia no sindicato, tem ação judicial para poder acabar com isso.  Essas fatalidades aconteceram com a Bandeirantes por dois motivos: o primeiro fica por conta de sua linha editorial, que é pautada pelo sensacionalismo de polícia. Aí podemos observar que o Gelson Domingues estava acompanhando uma operação policial sem equipamento adequado para fazer o seu trabalho. Na segunda, que é a manifestação, você vê as imagens da explosão do rojão que matou o Santiago. Nela podemos notar que ele está sozinho no meio do confronto sem uma proteção, sem um assistente para apoia-lo. Se ele tivesse um auxiliar naquele momento, com certeza esse profissional teria percebido aquela movimentação toda por detrás dele e o teria retirado daquela posição de  perigo. Agora, sem dúvida nenhuma a TV Bandeirantes é culpada, tem  responsabilidade sim pelo que aconteceu com os dois profissionais, o Gelson Domingos e o Santiago Andrade. Sem dúvida nenhuma. 


André Lobão: Você avalia que os protestos radicalizaram?

Alberto Jacob: Eu acho que o radicalismo até funciona , ele é até um direito quando você tem o radicalismo do outro lado . Nós vamos fazer uma manifestação pacifica , estamos lá exercendo o nosso direito constitucional em paz e em ordem. Aí vem o poder público com a sua polícia, por um descontentamento politico, e reprime essa manifestação. Nessa situação, temos o direito de nos rebelar contra  esse ato autoritário do Estado e partir para o confronto. Isso é uma coisa. Agora, outra coisa é que esse grupo de blac blocks se transformou em bandidos. Eles não só confrontam com a polícia como arrebentam o patrimônio público, e atentam contra a vida de qualquer um que esteja ali. Não fazem distinção, não é um confronto entre forças, é um grupo que chega para fazer baderna. Isso tem que acabar, o poder público tem que dar fim nisso. Não podemos continuar desta forma.

André Lobão: A associação tem registro de agressões a profissionais desde o início das manifestações em junho de 2013, até agora?

Alberto Jacob: No país todo foram mais de 107 ataques contra jornalistas. Aqui no Rio de Janeiro tínhamos um dado de 49 ataques da polícia, mas esse número é maior , não só pela ação policial, mas também pela ação dos black blocs. A AFORC, por exemplo, chegou a fazer 40 coletes de identificação para os repórteres fotográficos identificando-os como jornalistas. Exatamente para poder mostrar que não estão do lado da Polícia Militar e nem dos manifestantes. O problema é que quando você identifica o profissional acaba virando um alvo. Por que isso acontece? A PM se excede e começa a praticar atos agressivos contra manifestantes, contra a população, e aí os black blocs começam a praticar atos também agressivos contra à população. Aí a imprensa está lá para fazer essa documentação, e ninguém quer que isso apareça. Então, o jornalista se torna vítima tanto da PM quanto do black bloc.


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