segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Quem não é sincrético, que atire a primeira flor

Foto: André Lobão
Confesso que não  professo nenhuma religião apesar de ser batizado na Igreja Católica Romana. Mas posso dizer que sou um agnóstico, por acreditar que existe uma força que nos guia, como dizia o saudoso João Nogueira na música ‘O poder da criação’. Bom, recorro a esse “nariz de cera” para descrever mais uma participação nos festejos da Rainha do Mar, Iemanjá, aqui no Rio de Janeiro no dia dois de fevereiro último. Sob um intenso calor, que marca este quente verão, percorri junto com praticantes das religiões de matriz africanas, o trajeto entre a Lapa e a Praça XV, na região do Centro do Rio.

Gente de todas etnias e várias vertentes religiosas africanas como candomblé, umbanda, entre outros que agradecem por uma graça obtida e pedindo por alguma demanda.
Foto: André Lobão

Toda essa movimentação me deixa feliz, pois acho que de alguma forma está se fazendo um resgate de nossas raízes como brasileiros e cariocas. Eu sou um que percebi como a intolerância religiosa apaga aos poucos nossas referências e memórias com a mãe África. Não quero também ser intolerante, mas a realidade é que nos últimos 20 anos os terreiros e centros de candomblé e  umbanda foram varridos dos morros e favelas do Rio de Janeiro. Foi a aliança entre comandos e grupos de traficantes com determinadas vertentes evangélicas que propiciou isso. Hoje, infelizmente, não temos mais os cantos e batucadas, e as festas de santos. Quando é dia de  São Cosme e Damião, 27 de setembro, muitas famílias dessas localidades impedem seus filhos de pegarem os docinhos ofertados aos santos gêmeos. Eu mesmo nos anos 1980, cansei de pegar doces pelas ruas do Grajaú, Tijuca e Engenho Novo e no Morro do Andaraí, tempos bons. A sacolinha voltava cheia  de doces para a minha casa e o meu dentista ficava desesperado...

Foto: Divulgação
Essas referências da chamada ‘macumba’, termo que muitos consideram como pejorativo, formou e deu subsídio para muita gente boa do samba. Escolas de Samba como Salgueiro ainda preservam esse elo.


Outro dia assisti um documentário chamado ‘Onde a Coruja Dorme’, produção dirigida por Simplício Neto e Marcia Derraik, que conta a relação do inesquecível Bezerra da Silva com seus compositores que eram oriundos de morros e favelas do Rio e da Baixada Fluminense. De fato, uma narrativa bem interessante que aborda o universo desses artistas desconhecidos que tinham suas raízes criadas a partir dos terreiros de “macumba” e contavam como era a vida dos malandros.


Poxa, acho que viajei aqui na prosa, mas não há como deixar de fazer essas relações tendo como ponto de partida essas celebrações afrorreligiosas. Além do mais, confesso que ao participar desses eventos sinto uma boa energia. Sei lá, acredito que a ponte para fazer esse resgate com a nossa ancestralidade é exatamente pelos cultos afro-brasileiros. Historicamente, nossa formação é sincrética, e é isso que faz a diferença. Essa é a marca de nossa diversidade, essa é a marca do Rio e do Brasil. Somos sim, sincréticos e macumbeiros. Somos do jongo, da ciranda, da folia de reis e jogamos flores no mar para pedir a benção de Iemanjá. E tenho dito.
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