sábado, 2 de agosto de 2014

O Sindicato dos Jornalistas do Rio é a "bola da vez"

Observo que alguns colegas que trabalham na mídia corporativa assumem posições alinhadas com a linha editorial de seus veículos, que levantam claramente uma posição de criminalização dos movimentos sociais. Basta lembrar que fizeram isso durante muito tempo com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST. Em edição recente, o Globo tentou alinhar o Sindicato do Petroleiros do Rio de Janeiro, o Sindpetro-RJ a um inquérito policial, referente a “suposto financiamento de atos violentos” em manifestações.

Agora, a bola da vez é o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro. Isto porque um grupo de jornalistas, em sua maioria, trabalhadores da mídia tradicional como os tradicionais veículos de rádio, TV e mídia impressa, lançou uma petição online, um recolhimento de assinaturas, para a destituição da atual diretoria do sindicato. O  motivo desta articulação seria uma omissão do Sindjor-RJ em casos de ofensas e agressões à jornalistas, realizadas por ativistas:

“A diretoria não hesitou em condenar a violência dos agentes do Estado, mas demonstrou em diferentes momentos, ter uma absurda tolerância com ataques a jornalistas desferidos por manifestantes. Chegou a exaltar o trabalho dos chamados "comunicadores populares" ou "midiativistas", responsáveis, em diferentes momentos, por hostilidades, ofensas e agressões a repórteres. “ – diz o trecho da petição na fundamentação do pedido de renúncia.

De certo modo, essas hostilidades ocorreram e ocorrem, mas fundamentalmente elas se justificam pelo tratamento dado pela grande imprensa na criminalização de protestos e movimentos sociais. É obvio que qualquer profissional deve ter respeitada sua integridade física em qualquer tipo de cobertura jornalística, mas a construção desse ambiente se deu por conta desse comportamento preconceituoso da grande mídia ao demonizar os protestos, dando mais ênfase na questão dos atos violentos cometidos por radicais. Vale lembrar que muitos desses “comunicadores populares” e “midiativistas” são também jornalistas, e sofreram, e muito, com a violência nos protestos por parte das forças de segurança do estado.

Agora querer reduzir a discussão a um questionamento corporativista me parece ser um casuísmo. Ao invés de propor essa radicalização, os seguidores da petição deveriam colocar em pauta no próprio sindicato essa insatisfação. São mais de 700 assinaturas demonstrando isso. Que assumam uma participação no sindicato. Aceitem a troca de ideias e abram o debate sobre a questão colocada. É mais democrático.

Pelo que sei, essas lideranças sempre desprezaram a atuação Sindjor-RJ. Conheço diversos colegas que se queixam das condições de trabalho, do não pagamento de piso salarial e de outras demandas trabalhistas, e que nunca tencionaram em agregar um movimento a partir de uma ação sindical coletiva.

Alegar que sindicato não pode ser usado como instrumento político é um equivoco. Afinal, ele funciona e trabalha em função de uma ação política, mesmo que desagrade alguém ou a grupos que não compartilham das ideias e ações. Daí quem não concorda que assuma o papel de oposição e forme um grupo de atuação política dentro da própria  entidade.

Exigir renúncia é exagero de quem nunca deu importância para a atividade sindical. A atual diretoria tem pouco tempo no exercício do mandato. Pode  ter cometido o erro de não ter uma posição mais enérgica nessa questão da violência contra profissionais da mídia corporativa. Mas não merece ser sacrificada e linchada como está sendo no momento. Que se faça uma moção de repúdio, que se cobre um posicionamento mais claro e que se exija um debate mais amplo sobre a situação. O que não se pode admitir é um sectarismo e um desprezo pelo debate como está ocorrendo no momento por parte dos que pedem a saída da diretoria comandada pela Presidente  Paula Máiran.

Para finalizar, eu cito que foi o sindicato que agiu juridicamente para libertar a jornalista/radialista, Josiane de Freitas da EBC, detida sob acusação de formação de quadrilha. Além disso, eu não vi nenhum desses que pedem a renúncia da atual diretoria criticarem abertamente veículos como a Band pela morte de dois de seus cinegrafistas  em coberturas jornalísticas, como o Santiago Andrade, por exemplo, que exercia de forma precária seu ofício no dia de sua morte. Ele nem tinha registro em carteira na função que executava no fatídico dia de seu falecimento.

Bom, eu não quero radicalizar o debate. Se querem mudar o sindicato que assumam uma postura de ocupação e participação na vida sindical. Considero puro casuísmo ideológico  essa petição, e infelizmente uma reverberação do discurso dos patrões.
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