terça-feira, 30 de setembro de 2014

O lado "B" das marcas e empresas


A realidade das sociedades e a sua relação com as culturas de consumo. Novas formas de comercialização, modelos, práticas e novos conceitos emergem a partir da internet.  A Pesquisadora em consumo da UFPE, Professora e  Coordenadora do Curso de Publicidade da AESO de Olinda-PE e autora do livro ‘Terrorismo de Marcas, Izabela Domingues, participou do 7ª Encontro Nacional de Estudos de Consumo, o ENEC. O evento foi realizado na PUC-Rio entre os dias 24 e 26 de setembro. Ele concedeu uma entrevista ao Radiotube, enquanto participava do encontro.

Como avaliar essa realidade atual da internet com o consumo?

A internet se tornou um palco de muitas disputas, e de certa forma traz um impacto para o consumo, tanto de bens materiais e como de bens simbólicos. Eu especialmente estudo como os consumidores engajados, ativistas, traçam um olhar critico sobre as corporações, e de que forma estão utilizando a internet para mostrarem o lado “B” das marcas e das empresas. Sabemos que essas que essas empresas não gostariam que essas críticas viessem à tona. Essas situações muitas vezes não entram na pauta também da grande mídia por motivos óbvios. As grandes empresas são compradoras de publicidade, e, de certa forma conseguem ter uma negociação com os veículos no sentido de evitar que algumas dessas pautas entrem em evidência. Então, a internet não é esse espaço totalmente livre e democrático, como muitos acreditam, mas de fato a comunicação em fluxo possibilitou que tivéssemos condições de fazer circular determinados enunciados. Antes cada um de nós diria possivelmente para um amigo, irmão, para alguém que estava ali mais próximo do nosso convívio presencial. Com a internet, com essa comunicação todos-todos, com uma série de enunciados que não estavam na pauta das críticas, e desse lado “B” das relações econômicas e sociais, o tema ganhou força e traz uma série de desafios novos, inclusive, para quem trabalha com marketing, propaganda, com comunicação mercadológica.

O  consumidor nessa nova configuração assume um papel mais atuante?

Diversas pesquisas apontam que os consumidores estão sim mais atentos e mais críticos pelo fato de que essa grande circulação de informações faz com que tenhamos acesso a determinados dados que antes através dos meios massivos, de uma lógica unidirecional não teríamos acesso. E então, se a partir do momento que eu fique sabendo de determinadas informações me posiciono criticamente, daí para contestação é um passo muito rápido. E dentro de todo esse cenário das novas mídias, da Web 2.0, surge à chamada economia da recomendação, o que é isso? É o fato de que a voz de cada um de nós consumidores cidadãos vai chancelar, ou não, determinadas empresas e determinados serviços. Então quando acessamos, por exemplo, a página de alguma pousada, verificamos o que essa pousada está dizendo, o seu discurso oficial. Mas, certamente, iremos prestar muita atenção nas falas dos consumidores. Existe uma pesquisadora chamada Alana Maltês, de Pernambuco, que tem um trabalho que fala sobre a recomendação das pessoas desinteressadas economicamente, que não vão gerar receitas a partir do seu testemunho para uma determinada empresa, e que vão colocar ali de fato as suas opiniões sinceras em relação a uma experiência favorável ou desfavorável. Com isso, a internet traz uma ampla circulação de enunciados contrários, ou não, e marcas. E essa economia da recomendação traz a força do endosso de pessoas comuns, que daremos valor e vai ser muito importante nessa nova dinâmica comunicacional e mercadológica.


Muitos pesquisadores afirmam que o consumo é uma forma de inclusão social, você concorda com essa tese?

O consumo como uma forma de inclusão social é um tema bastante complexo. Alguns autores avaliam que os governos Lula e Dilma trouxeram uma forma de mobilização da população, a promessa de acesso ao consumo. Bom, de fato sabemos que houve uma ascensão do acesso a determinados bens materiais e de bens de consumo para uma camada da população, que até então não podia consumir esses bens, a chamada nova classe média. Esse termo também é bem polêmico porque alguns autores avaliam que não há uma nova classe média, mas sim uma nova classe trabalhadora. Porque existem relações econômicas, sociais, trabalhistas, que não fazem somente do aumento desse poder de compra que proporciona determinados ganhos de bem-estar social que uma classe média já colocada teria. Então, esse assunto é delicado dependendo dos autores que estamos dialogando teremos uma perspectiva positiva ou negativa. Mas certo é que a cidadania, hoje, no capitalismo contemporâneo, passa sim pela esfera do consumo.
Canclini fala no seu livro ‘Consumidores e Cidadãos’ que o consumo é uma esfera aonde vamos exercer essa cidadania, nós vamos nos colocar politicamente, em relação com os outros. Então, não podemos apresentar um olhar maniqueísta quando tratamos de consumo como conhecimento e sociedade. É preciso tentar se cercar ao máximo de diversas visões para, a partir, daí, podemos analisar esses fenômenos.

Você participa ativamente do Encontro Nacional de Estudos de Consumo – ENEC, quais são o objetivos dessa atividade?


O Encontro Nacional de Estudos de Consumo – ENEC está completando agora, em 2014, 10 anos. Eu como pesquisadora da área participo já a quatro edições, e acho que é um fórum muito importante de discussão a respeito do consumo e a sua relação com diversas esferas da sociedade. Percebemos que os pesquisadores que participam desse encontro buscam por um olhar que não seja de satanização e nem de glorificação do consumo. O consumo é hoje uma arena de disputa materiais, e, especialmente, simbólicas. Desta forma, o ENEC propicia que tenhamos um olhar multifacetado com diversas perspectivas para que possamos entender esses fenômenos contemporâneos cada vez mais complexos de uma maneira mais aprofundada.
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