quarta-feira, 12 de novembro de 2014

PODEMOS - A nova democracia representativa espanhola


O jornalista espanhol Bernardo Gutiérrez tem experiência em coberturas importantes como o Movimento Zapatista no México (1994) e as manifestações antiglobalização ocorridas durante o encontro da Organização Mundial do Comércio – OMC, em julho de 1999 em Seatle (EUA). Hoje, com a internet, seu trabalho jornalístico não mais tem fronteiras. Ele está integrado a todas as praças do planeta. Espanha, EUA, Turquia, Itália, Costa Rica, Nicarágua, México e Brasil entre outros países. O direito à cidade é uma de suas bandeiras, assim como a pratica da cultura livre. Ele também um estudioso das redes e da forma como elas se constroem e consolidam através da quebra do paradigma da velha democracia representativa, que se apresenta vertical, sem novidades e comprometida com interesses corporativos. O tema de nossa conversa, no Radiotube, foi sobre a crise de representatividade da democracia global e o surgimento de novas alternativas como o PODEMOS, novíssimo partido político espanhol criado recentemente, que apresenta um modelo de participação direta e horizontal em suas decisões.

André Lobão: Como avaliar o desgaste do sistema político na sua representatividade no contexto global?

Bernardo Gutiérrez: Eu acho que a situação muda bastante dependendo dos países, mas em todos sentimos um desgaste político com esse formato de partidos, com essa estrutura que costuma ser vertical hierárquica e fechada. Não tem um dentro, um fora muito claro. O partido normalmente está linkado à ideologia de esquerda, direita, centro e alguns temáticos como o Partido Pirata e o Verde. E por outro lado, tem a crise da democracia representativa, precisamos falar em métodos de escuta e de diálogo que na era da rede, na era da conexão, na era em que as pessoas são bem informadas deveria ser uma forma comum de ação dos partidos. O sistema de votações a cada quatro, cinco anos, dependendo do país, é normalmente muito fechado. Não existem mais caminhos, vias e métodos para participar. E por isso, fica evidente que o sistema está esgotado.

André Lobão: Um exemplo de um novo de jeito de se fazer política é o PODEMOS da Espanha. Uma iniciativa nova que já é a quarta força política do país. Qual é a novidade que ele apresenta no cenário político e da cidadania na Espanha?

Bernardo Gutiérrez: O PODEMOS nas duas últimas semanas já é a primeira força política, não mais a quarta, isso é o que dizem vários estudos divulgados, o que é sobrenatural. O PODEMOS tem muito mais que uma nova forma para um partido. Ele tem muito a ver com a rede, tem relação com algumas questões tecnológicas, mas ultrapassa isso. É um fenômeno, uma maré emocional que surgiu depois de dois, três anos, a partir do movimento dos indignados, do 15M. Ou seja, o PODEMOS nunca existiria por si só. Na Espanha surgiu um movimento, uma rede de coletivos auto organizada com uma nova concepção de narrativa, com uma nova gramática social de comportamento das relações entre os movimentos, redes, coletivos, hackers, vizinhos, moradores e aposentados. Foi criado esse novo ecossistema de assembleias populares, de movimentos lutando a favor da saúde pública, misturando sindicalistas, hackers, cidadãos, mais que bandeiras... Foi criado realmente um clima político-social novo e diferente, que é um pouco do contexto da paisagem do PODEMOS.

Não dá para falar que o partido surgiu da Web somente, ele surgiu da rua, da rede. A narrativa criada por eles é importante porque é uma saída pela esquerda, mas que ultrapassa essa narrativa da própria esquerda. Porque a genialidade narrativa do PODEMOS é pelo fato de agregar ideias que vão além do eixo esquerda/direita, sendo eles claramente de esquerda, mas que também não tem a bandeira ideológica de uma forma muito contundente. É difícil você ser de direita e votar no PODEMOS, mas tem o sujeito que também fica irritado e acha que a iniciativa é aberta que não usa essa narrativa da esquerda e de direita. Enfim, é um fenômeno realmente. É mais que um partido.

André Lobão: E a influência do movimento 15M na construção do PODEMOS?

Bernardo Gutiérrez: Não tem como desassociar. O risco também é pensar que o partido é do 15M, o que não é. Eles são bem claros ao frisar isso: “a gente não representa o 15M”. O 15M é um sistema abrangente que aborda questões importantes da saúde à cultura da vida colaborativa no bairro até a macroeconomia. Existe uma boa parte do 15M que está sendo crítica com o PODEMOS, eles estão apanhando também. E isso é interessante porque há diálogo a partir dos círculos, as organizações geográficas, bairros das cidades, ou os laboratórios hackers ao redor do bem-comum, que criticam com objetivo de evitar que o PODEMOS acabe virando um partido comum. Então, não dá para falar dele sem falar do 15M, mas é preciso ter cuidado.

André Lobão: Existe resistência dos partidos tradicionais da Espanha ao PODEMOS, como é essa visão deles sobre a inciativa?

Bernardo Gutiérrez: Tem uma resistência clara de dois grandes partidos, o Partido Socialista e o Partido Popular. É aquela história: “sou de centro-esquerda; sou de centro-direita”. Hoje eles são quase o mesmo, um partido único na economia com diferenças só nas questões morais como o aborto e outros temas. Tem resistências nos partidos do status quo da Catalunha, dos nacionalistas, também da Esquerda Unida e dos partidos pequenos. Todos têm essa resistência porque no fundo o PODEMOS critica o fato de existir uma casta, dessa elite configurada em partidos controlada pela elite econômica e social do país.
Mas justamente essa possibilidade de uma convergência está surgindo também no âmbito municipal, que é a frente GANHEMOS. Essa é iniciativa que já existia antes do PODEMOS. Tinham outro nome que era o ‘Municipalia’ de Madri, uma tentativa de organizar os bairros e uma forma política de chegar ao poder nas cidades. Mas depois do surgimento do furacão PODEMOS, o ‘Municipalia’ muda de nome e vira GANHEMOS. O interessante é que surgiu como um guarda-chuvas aonde foram abrigados os partidos menores. Entraram ecologistas, Esquerda Unida, e, nesse contexto, o PODEMOS vai apoiar eles também. Ou seja, uma frente cidadã com diferentes partidos que vai funcionar como guarda-chuvas, mas não com a lógica da aliança política de três partidos que negociam os candidatos antes das eleições e pronto. Não é isso. Terão listas abertas, eleições primárias em que qualquer pessoa pode se candidatar. E talvez, os partidos que estão dentro do GANHEMOS não vão conseguir ter candidatos, mas é diferente. Os partidos pequenos estão entendendo o PODEMOS, os grandes não. Pois é um choque fortíssimo neles.

Áudio da entrevista:



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