quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Ecos de Paris

Relato equilibrado de um amigo brasileiro que atualmente vive na França sobre o atentado ocorrido em Paris. A partir dele vale uma reflexão sobre os antagonismos do mundo atual que, paradoxalmente, vive a era da informação e conhecimento. Infelizmente, a Lei de Talião "Olho por olho e dente por dente" ainda permeia o senso comum da ignorância, aonde a intolerância se forma com os preconceitos religiosos, de raça, ideológicos, de gênero, de orientação sexual e social entre outros. O Brasil não está muito distante da triste realidade mundo aonde impera a ignorância e o terror.

Por Magno Klein:

Paris vai dormir sem ainda terem sido encontrados os três responsáveis pelo ataque terrorista desta manhã. Muitos amigos me perguntaram o clima na cidade. A vida não parou e os moradores tentam voltar ao ritmo, apesar da revolta e do medo. Mas ainda não há garantias de que não ocorrerá um outro atentado nas próximas semanas. Algumas pequenas tentativas de bombas foram desfeitas em Paris desde o final do ano passado e é possível que outras mais ocorram estimuladas pela carnificina desta manhã. O presidente Hollande anunciou alerta máximo contra ameaças terroristas, o que quer dizer que prédios públicos, templos religiosos, grandes lojas e as mais importantes estações de metrô estão sob forte vigilância. A Cidade Universitária onde moro e a universidade onde estudo (SciencesPo) manterão as atividades normalmente, mas com segurança redobrada. Torço para que não haja mais ninguém ferido quando os suspeitos forem encontrados, em especial os agentes de segurança responsáveis pela busca. Para estes monstros, a prisão será destino menos honrado, e por isso mais adequado, do que a morte. 

Um ato de barbárie como esse cria duas vítimas para além dos 12 mortos. A democracia francesa sai abalada com os ataques à liberdade de expressão e o possível aumento das medidas repressoras estimuladas por uma extrema direita xenófoba e alimentadora do medo. A Frente Nacional, partido que representa hoje este grupo, muito provavelmente estará no segundo turno das eleições presidenciais de 2017 e o aumento do discurso do medo ao estrangeiro ajudará nessa ascensão.


A comunidade muçulmana francesa também sofrerá por muito tempo os efeitos deste dia 7 de janeiro. Um amigo muçulmano comentou: a partir de agora será ainda mais difícil para ele encontrar trabalho em Paris. Parecer árabe na cidade pode trazer problemas. O país de 66 milhões de habitantes tem ao redor de 6 milhões de muçulmanos, mais ou menos ligados à religião, além de uma grande quantidade de descendentes não praticantes. Um conjunto que sofrerá as consequências dos atos de uma minoria que deturpa os fundamentos do Alcorão (que condena atos de violência e não proíbe representações de Maomé). 


A presença islâmica na Europa passa por um momento delicado e conflituoso. Desde 2009 é proibida a construção de minaretes na Suíça. Nesta semana, marchas ocorreram pela Alemanha para criticar um movimento que diz querer proteger o Ocidente da “islamização”. Mas é na França que a situação parece mais delicada. Proporcionalmente, é o país mais muçulmano da Europa Central (alguns dizem se tratar de 10% do total da população, valor em expansão). Entre os franceses, o medo da perda da “identidade” aumenta. Exatamente hoje foi lançado o livro “Soumission”, de Michel Houellebecq, que imagina para o futuro de 2022 uma França elegendo um presidente islâmico de um partido islâmico. 

Além disso, o governo francês vem recentemente expandindo sua atuação no norte da África contra o extremismo religioso (Síria, Niger, Mali, Líbia), o que faz da França hoje talvez o país mais visado na Europa para um ataque terrorista por parte dos fundamentalistas islâmicos.


#JeSuisCharlie
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