segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

França e o impacto político dos atentados

O Radiotube conversou com o Doutorando em Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos de Paris, o brasileiro Magno Klein. Ele dá um panorama sobre o contexto atual da França após ao ataque à redação do seminário satírico Charlie Hebdo que deixou 12 mortos em Paris no último dia sete de  janeiro.

André Lobão: Qual o panorama de Paris após o atentado contra a revista Charlie Hebdo?

Magno Klein: Paris hoje é uma cidade em ressaca. É uma cidade que ainda tenta se acostumar com a ideia do que aconteceu. É possível sentir nas ruas, entre as pessoas, um clima de estranhamento e ainda de medo. A sensação é de que cidade ainda espera pela possibilidade de ocorrerem outros atentados.  Em qualquer situação pouco além do normal você percebe que as pessoas ficam assustadas. Outro dia fecharam a Gare Du Nord, uma grande estação de trem aqui da cidade, por causa de um embrulho encontrado. Então, você sente um pouco esse clima. Um policial foi morto em uma troca de tiros na Região Sul de Paris, mas você sente que as pessoas reagem como se isso fosse um novo atentado. Quer dizer, todo mundo ainda está muito assustado, muito impressionado. E a qualquer acontecimento um pouco mais agressivo, além do normal as pessoas reagem de uma maneira bem assustada com muito receio.  Esse é o panorama de Paris.

André Lobão: E a comunidade islâmica na França, como ela convive com o preconceito depois disso tudo?

Magno Klein: É difícil dizer, mas imagino que a população muçulmana e árabe que vive na França começa certamente já a sentir um pouco de incomodo. Quer dizer: parecer árabe hoje em Paris já não era fácil há muito tempo. É um grupo que sofre muito preconceito, eles têm dificuldades nos seus relacionamentos interpessoais, na busca por trabalho, no seu dia-a-dia, e a partir de agora eles vão sentir mais essa situação. Ainda cedo para saber até que ponto isso vai ocorrer, mas certamente a grande maioria da população islâmica da França, que hoje está em torno de 6 milhões de pessoas,  vai sofrer as consequências de um ato de fundamentalistas que deturpam o Alcorão, mas que infelizmente é capaz de influenciar uma grande quantidade de franceses pelo medo. Hoje, os franceses têm medo, não compreendem bem o que significa o islã. A imagem que existe na França é que há uma incompatibilidade. A grande parte dos franceses acredita nisso, pois, de fato, existe um atrito entre a cultura islâmica e a cultura francesa de república e democracia. Esse atentado terrorista infelizmente tenderá a reforçar esse estereotipo de que os muçulmanos que vivem aqui não têm a vontade de se integrar com a sociedade e cultura local.

André Lobão: A Revista Charlie Hebdo é polêmica, qual o perfil dela?

Magno Klein: A Charlie Hebdo é uma revista satírica que trata com humor os temas da contemporaneidade. A publicação sempre tentava mostrar como o humor é uma maneira diferente de trabalhar os temas. E o humor não é diferente da política e a política não precisava ser séria e sisuda.  O debate poderia ser sério e bem-humorado ao mesmo tempo. É uma revista que apesar de sempre usar o tema etnomico não era focada nessa questão. Eles não faziam uma campanha restrita contra a população islâmica e árabe. Na verdade, todos eram alvos, todas as religiões, árabes, católicos, judeus, vários líderes políticos foram alvos do bom humor da ironia e do sarcasmo que acontecia na Charlie Hebdo. Mas para boa parte dos muçulmanos o que ela fazia  era uma ofensa e blasfêmia. Mas é importante pensar que não é só o que a gente quer, mas é como lidamos com o incomodo. Hoje, podemos pensar se aquilo que ela fez era ético, falar de Maomé daquela maneira. Mas o que define uma democracia é de que  forma lidamos com aquilo que nos incomoda, e certamente um atentado como aquele é totalmente contra a ideia de república que ainda tenta se manter na França.

André Lobão: Depois de a revista ter publicado uma charge em 2006 do Profeta Maomé, muitos integrantes da comunidade islâmica disseram que ocorreu uma agressão contra a religião muçulmana. A Charlie Hedbo excedeu o limite do bom senso?

Magno Klein: Devem existir limites, mas a ideia de democracia aponta que os limites devem ser feitos de maneira legal e constitucional. É compreensível a contrariedade da comunidade islâmica pelos desenhos por ter seu profeta representado de uma maneira desrespeitosa, mas o espaço de luta deveria ser o espaço da democracia, o espaço constitucional. A democracia indica que a luta é possível, que as leis podem ser mudadas e as realidades redefinidas. Então, uma coisa é você condenar a revista, pedir para as pessoas não consumirem, não comprarem, não lerem, uma campanha contra a credibilidade da publicação. Esse é o reino da democracia e o que se espera em um ambiente democrático e isso não foi o que aconteceu, infelizmente.

André Lobão: A democracia francesa pode ficar abalada por conta desse triste episódio?

Magno Klein: É a pergunta que todos fazemos neste momento. A França passa por um momento político muito específico com a ausência de líderes democráticos, e esse é o panorama político atual. O único fenômeno de hoje, que mobiliza as pessoas e está em ascensão é o movimento de extrema – direita representada pelo partido da Frente Nacional.  É um partido que vem crescendo nas eleições e já existe  a  expectativa de que eles já estejam no 2° turno das eleições presidenciais francesas em 2017. É um partido xenófobo, que defende a saída do Euro, a saída da União Europeia e o fechamento das fronteiras. A França faz parte de um acordo (Shengen), em que  a circulação de pessoas é facilitada entre os países signatários da União Europeia, e a Frente Nacional é contra esse tratado. Há de se esperar que as pessoas sintam mais afinidade com esse discurso que enxerga o estrangeiro como outro, como ameaça e que precisa ser barrado. Algumas medidas já foram tomadas pelo governo francês de maior controle de fronteiras para entrada e saída de pessoas, e é possível que no futuro uma diminuição dos diretos democráticos e de facilidade na execução de prisões arbitrárias. Mas é importante reforçar que  os atentados  foram cometidos por pessoas de cidadania francesa. Então não se trata, neste caso, de imigração irregular. Não são imigrantes irregulares que entraram no país, são pessoas que falavam muito bem o francês, que nasceram aqui. Existe um movimento muito forte na França e na Europa de pessoas que se sentem atraídas pela doutrina Jihadista, que até partem para o Oriente Médio para lutar a favor do Estado Islâmico. Esse é um fenômeno que agora vai fazer com que a França fique mais atenta. É preciso entender como um país que se considera republicano está produzindo extremistas dentro de seu próprio território.

 
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