sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os ocultos das ruas do Rio


Imagem: Celso Ramalho

Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, no Rio de Janeiro 5.580 pessoas fazem das ruas o seu endereço. Desse total, cerca de 38% vivem no centro da cidade. Em um dia de verão, com uma temperatura beirando os 40° graus, uma mulher se soma a esses dados oficiais, e se protegendo do intenso sol à procura de uma sombra nos arcos da Lapa. Ela se chama Katia, não quer informar seu sobrenome: “A minha história de rua começou mesmo aos 13 anos de idade. Eu morava com a minha mãe de criação. Então, meu irmão me abusou sexualmente e eu vim parar no Centro da cidade. Foi aí que fui conhecer a rua de verdade.” – revela com misto de revolta e sinceridade no olhar o seu drama familiar.

Hoje, as mulheres representam 44% dos moradores em situação de rua conforme dado indicado em uma coleta de dados realizada pelo Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, o Nudedh em 2013.

“O morador de rua em sua maioria não usa drogas. E outra coisa que ficou muito clara é que o maior motivo de ingresso nas ruas é a questão da disfuncionalidade das famílias. Como assim disfuncionalidade? Questões emocionais, relacionamentos mal resolvidos, complicados em que as pessoas não conseguem se entender, e aí acaba e culmina com a saída da pessoa de casa e indo para as ruas.” - explica a Defensora Pública Carla Beatriz.

Ainda sob a sombra dos arcos, Katia fala sobre o preconceito sofrido nas ruas: “A gente é tratado como um lixo, é humilhado. Só quem está aqui na rua sente na pele o que a gente sofre. Sempre ouvindo que morador de rua é ladrão, é drogado, tá ali porque quer, não vai arrumar um serviço porque não quer. As pessoas passam viram a cara, fazer o quê.” – lamenta.

André de Oliveira é coordenador da ONG Proamor, uma entidade voltada para proteção e amparo aos ocultos que moram na rua: “É triste essa realidade. Porque a sociedade acaba tentando buscar essa ferramenta de proteção, se proteger dessa realidade social através desse fenômeno de invisibilidade. E essa ideia de invisibilidade é muito torpe. Porque você percebe que as pessoas no fundo têm, em tese, uma visão humanista, solidária, religiosa, mas no dia-a-dia do cotidiano não conseguem conviver bem com essa realidade.” – ao citar a incoerência da sociedade.

O aparato público para proteção social cresceu em todo o Brasil entre 2009 e 2013 e o que aponta a pesquisa Munic (Perfil dos Municípios Brasileiros) Assistência Social, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE em 2014. Segundo o levantamento, os Centros de Referência de Assistência Social cresceram 44,9% entre 2009 e 2013; no mesmo período foram construídos 154 Centros dedicados à população que vive nas ruas.

Embora o auxílio à população carente tenha crescido nos últimos anos, os moradores de rua ainda recebem um atendimento precário. Katia conhece bem a realidade de um abrigo no Rio de Janeiro: “Aquele abrigo de Santa Cruz é a pior coisa do mundo. Às vezes é melhor estar na rua, de baixo de chuva do que ficar naquele lugar, lá só tem droga. Depois que a gente tá lá dentro os milicianos, os policiais entram lá dentro batem em todo mundo, esculacha todo mundo. Essa é a realidade do abrigo de Antares.” – em tom de denúncia sobre o abrigo administrado pela Prefeitura do Rio.

A Defensora Carla Beatriz critica a precariedade dos abrigos no Rio: “Um abrigo tem que ter no máximo 50 pessoas para dar conta, para ter um atendimento diferenciado, um atendimento mais especializado. E aí como o número é imenso, o abrigo de Antares que estive lá eram quase 400 numa refeição, agora vai sofrer um reforma. Terão unidades de no máximo 50 pessoas, isso vai facilitar o trabalho deles e o nosso também. Na verdade, faltam abrigos no Rio de Janeiro, essa é uma realidade que a gente não pode esconder.” – sobre o abrigo ‘Rio Acolhedor Paciência’, o maior Prefeitura do Rio que localizado na Zona Oeste da cidade.

Em meio ao intenso calor de uma tarde ensolarada de um verão carioca de rachar, com tantas incertezas, preconceito e desprezo será que Katia, pode ter  a esperança de dias melhores? “Esperança, acho que hoje em dia não sei mais o que é essa palavra, e nem o que significa isso.” – desconsolada ao finalizar a conversa.

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