sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

No olho do furacão: Argentina, Brasil e Venezuela






Os primeiros dois meses de 2015 foram de um verdadeiro inferno astral para os governos de Argentina, Brasil e Venezuela. Seus presidentes sofrem com altos índices de impopularidade e são praticamente emparedados pela mídia de seus respectivos países. A situação estranhamente parece orquestrada com uma chuva diária de denúncias contra os governantes. O Radiotube conversou com Renato Rovai, jornalista, mestre em comunicação e editor da Revista Fórum, além de midialivrista e blogueiro. Rovai fez uma análise do atual contexto.

André Lobão: Como avaliar essas turbulências políticas que os países do Mercosul como Argentina, Brasil e Venezuela  passam no momento?

Renato Rovai: O que parece fazer cada vez mais sentido é que esses países têm sofrido turbulências mais por impulsos externos, do que por problemas necessariamente internos. Há interesses geopolíticos e econômicos por trás, por exemplo, contra algumas decisões dos governos de Brasil, Argentina, Bolívia, Peru e até do Chile. Há grandes empresas transnacionais que hoje poderiam estar ganhando muito mais dinheiro se tivessem governos alinhados aos seus interesses. De alguma forma, essas empresas se juntam sempre com o Departamento de Estado Americano, com grupos de “falcões” que atuam no governo dos EUA, sempre pesando em como melhorar suas posições externas. Esses grupos têm sim incentivado essas tormentas.  Eu não vou dizer que são todas, mas algumas com certeza.

André Lobão: Essa situação marca um novo realinhamento da política externa americana?

Renato Rovai: Eu não sei se houve um desalinhamento. Teve um período no qual os EUA estavam bem preocupados com outras áreas do planeta, e acabou por não dar tanta importância para a América Latina, porque estavam com seus olhos voltados para o Oriente Médio e Ásia. Isso não se dissipou, mas que eles perceberam que haviam dado tempo demais para esses governos mais progressistas da AL. Eu imagino que a política externa americana e a sua inteligência acreditaram que esses governos latino-americanos não durariam muito, e como eles foram continuando, sendo reeleitos, agora estão sendo mais agressivos.  As petroleiras americanas que exploram petróleo em campo marítimo estão disputando nossas bacias, não querem dar barato para a Petrobras, eles estão de olho no gás, minério, xisto. Esses grupos têm interesses sim, e às vezes até de ocupação e de legislação, por exemplo. Não interessa aos EUA a aprovação do Marco Civil da Internet. Então, esses interesses somados das transnacionais, que hoje formam um verdadeiro “Estado”, resultam em ações constrangedoras para os países que contrariem seus interesses. Basta olharmos o que esses vazamentos de informações do Wikileaks; e agora temos essa revelação do  caso “Spy Cable” feito pela Al Jazeera e o The Guardian, que revela documentos da Agência de Segurança da África do Sul e suas relações com a CIA, Mossad e o M-16. E aí você pode ver como esse jogo se realiza. As pessoas até zombam: ah, esse pessoal da “Teoria da Conspiração”... Então, sabemos que existe de fato muita coisa acontecendo. Tem disputas sim que estão sendo incentivadas, fomentadas, denunciadas por grupos que querem ganhar de forma bem objetiva.


André Lobão: E os grupos de comunicação, mídia que participam dessas orquestrações?

Renato Rovai: A mídia no mundo inteiro possui até sutis diferenças de valores como, por exemplo: uma é mais progressista em relação à questão da liberação das drogas e outras mais progressistas na questão da liberação do aborto. Podemos perceber sutis diferenças, mas todas professam a fé no mercado. É uma lógica neoliberal de alinhamento coletivo dessas empresas jornalísticas. Elas acabam falando a mesma língua nesse sentido, e ao professar a defesa do mercado estão na verdade defendendo interesse das grandes corporações. Esses grandes grupos de empresários jogam contra os interesses nacionais e mais do que isso, contra o interesses dos trabalhadores, daqueles que não têm força econômica.

André Lobão: Na verdade, existe um objetivo de tornar esse discurso do liberalismo econômico um senso comum, não é isso?

Renato Rovai: É exatamente isso, esse é o grande dado do que podemos chamar de uma só voz midiática. Todos professam a mesma fé no “Deus Mercado” e não existe desalinhamento. Por isso, é importante que tenhamos essas mídias alternativas, livres, produzindo a contrainformação. Disputando assim, ideologicamente, a sociedade. Não podemos viver em uma sociedade aonde menos de 100 empresários detém 100% das riquezas. Isso é uma desproporção absurda, devemos aumentar a distribuição de renda e gerar  políticas de inclusão. O garoto que é negro na periferia do Rio ou em São Paulo, e que mora em uma palafita, com um único cômodo com sete pessoas da família, e não tem uma luz para estudar a noite. Esse menino não tem as mesmas condições, estudando no ensino público, do que o meus filhos, por exemplo, que têm uma vida mais organizada e que tiveram condições de estudar em uma escola mais razoável. Eu falo de meus filhos para mostrar  como contextualizo essa situação, não fazendo só o discurso para os outros. Infelizmente, as pessoas estão brigando por essas migalhas. Não se faz um debate dos grandes empréstimos que o Brasil paga, ao fato de nós não termos taxação de grandes fortunas. Aqui no Brasil, por incrível que pareça se faz o debate sobre o ‘Bolsa-Família’. Enfim, sobre o custo do ‘Minha casa, minha vida’, o custo do FIES, isso é o que importa, infelizmente. Quando na verdade temos esse desvio permanente de bilhões com todo esse dinheiro direcionado para financiar os milionários do Brasil e do planeta.

André Lobão: O governo Dilma está perdendo a batalha da comunicação ao se deixar acuar por essa orquestração midiática?

Renato Rovai: O governo está errando em muita coisa, inclusive na comunicação. Erra na articulação política, na escolha de aliados, na forma de discutir os programas sociais prioritários, errando na forma de conversar com os movimentos organizados, e errando muito na área de comunicação. E isso não é de hoje, vamos ser justos. Errou também nos governos do Lula, não só no da Dilma. É uma forma de fazer comunicação bastante burocrática, baseada na lógica tradicional de apenas colocar anúncios nos veículos privados, e tentando arrumar algum tipo de equilíbrio com esses grupos de mídia. Isso não constrói alternativas para uma oxigenação do processo democrático brasileiro, o que pode ser feito a partir de uma possível democratização da mídia.

André Lobão: A regulação seria uma alternativa para mudar esse contexto?

Renato Rovai: Sim, isso passa por uma nova regulação midiática e passa também em fortalecer projetos comunitários, de rádios e TVs alternativas, com veículos de entidades de classe, sindicatos, abrir o espectro, criar uma política de financiamento e apoio. É preciso também que seja feita a regulamentação dos artigos da constituição de 1988 que tratam dessa questão.

André Lobão: E a internet, o governo tem dificuldade em entender essa nova ferramenta?

Renato Rovai: Esse é um dos problemas. O que acontece é que pouca gente entende de comunicação, mas muita acha que entende. O funcionamento da sociedade em redes é desconhecido por essas pessoas, tanto que o junho de 2013 acabou pegando todo mundo de “calça curta”. Quando digo todo mundo, me refiro à gente da academia, governo e mídia tradicional. Eles queriam saber quais eram os líderes do movimento e perguntavam: cadê as lideranças, quem são? Como se fosse necessário organizar movimentos com lideranças. Então, quem conhece um pouco do assunto sabe que alguns movimentos se articulam sem grandes líderes. E esse é um dado da nova realidade que é desprezada.
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