segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Tecnopolítica e revoltas conectadas

No último dia 11 de setembro foi realizada na PUC-Rio a palestra ‘Tecnopolítica: reconfigurações político-sociais na América Latina’, ministrada pelo Jornalista espanhol Bernardo Gutiérrez. Na apresentação Gutiérrez fez uma análise de como as tecnologias digitais de comunicação são incorporadas pelo ativismo social para o empoderamento de movimentos e insurreições. As mobilizações populares ganham uma nova dimensão quando as lutas se apropriam da cultura de rede e das novas tecnologias. O jornalista e pesquisador apresentou um levantamento em que mostrou dados sobre o uso dessas ferramentas, em especial em países da América Latina, a partir da utilização de plataformas como Twitter e Facebook.

Tendo como referência o estudo realizado e a definição do que é ‘Tecnopolítica’ feita pelo pesquisador Javier Toret, que fez uma pesquisa sobre o surgimento e explosão do movimento espanhol ‘15M’, em que analisou o formato e arquitetura de suas convocações para as manifestações na Espanha, que naquele momento vivia o auge de sua crise econômica sem precedentes, motivada  pela crise de 2008, Bernardo Gutiérrez apresentou como esse fenômeno de mobilização popular se reproduziu em países latino-americanos.

As lutas e mobilizações são variadas em diversos contextos e situações, mas sempre têm uma lógica ou característica comum: o uso do espaço híbrido: a rede digital e ruas e a sua posterior apropriação pelos coletivos de forma horizontal e sem lideranças em movimento único e ao mesmo tempo fragmentado. As lutas formam a ‘Cosmopolítica’ uma união de demandas que tornam comuns as lutas e se agregam apesar das distâncias geográficas como as dos povos originários da Bolívia, Equador, Peru, México e Brasil. O território passa ser a rede de computadores.




















A rua passa a ser o ‘glocal’ (local + global), onde se faz o diálogo e troca de símbolos, ícones a partir de diferentes locais do mundo. O OccupyGezi (Turquia) dialoga com o OccupyBrasil.

Para configurar essa narrativa, o jornalista espanhol remete para um histórico inicial focalizado no movimento Zapatista ocorrido no México nos anos de 1990, em que ele considera ter sido inaugurado o diálogo entre a mobilização e o chamado “Hacktivismo”. Neste momento, em que hackers do mundo inteiro junto com os zapatistas mexicanos criaram um novo método organizacional e autônomo. Esse é o embrião das mobilizações na América Latina.

Para rememorar, o ano de 2011 foi marcado por um grande movimento chamado Primavera Árabe, que ganhou bastante repercussão, pois acarretou na deposição de diversos governos em países árabes. O chamado 2011 Global aconteceu em movimentos como o 15M(Espanha), Grécia, Occupy WallStreet, #17JIsrael,Rusia, #150. Foi um momento em que foram alteradas regras político-sociais e tecnológicas de diversas sociedades. Todas essas mobilizações tiveram como característica comum o uso da chamada tecnopolítica.

Mas como mapear essas ações nas redes sociais? “Para chegar a esses resultados utilizei de forma simultânea quatro softwares para recolher esses dados que eram gerados no Facebook e Twitter. Quase que de forma manual reuni dados e fiz isso a partir da análise de perfis e hastags dessas plataformas. Os movimentos na rede foram bem descentralizados no início, como por exemplo, nas Jornadas de junho de 2013, quando você compara com o que aconteceu nas eleições de 2014, e o atual momento de expansão do chamado conservadorismo de 2015. Podemos observar uma grande modificação nesse movimento que começa se centralizar a partir do chamado binarismo entre PT e PSDB.” disse Gutiérrez, identificando a alternância dos movimentos de protesto na ocupação das redes.

O fato é que o uso das novas tecnologias digitais de comunicação vem propiciando a construção de novas ações na dinâmica dos movimentos populares e sociais. É preciso entender como se dão essas conexões e compreender como essa agregação do comum se mostra importante na formação dos coletivos e, principalmente, suas potencialidades para conquista de um bem-comum na sociedade. A verdade é que não basta só estar na rua e ocupar as praças para tentar mudar uma situação ou contexto, como também não é ficar só ficar restrito e combater somente pela rede. Essa junção entre tecnologia e multidões apresenta uma nova realidade que a cada dia apresenta novas ferramentas e dinâmicas. A revolta é conectada. Até porque o próprio poder (estado) já também procura entender e opera situações de controle sobre essa nova realidade.
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