terça-feira, 13 de outubro de 2015

Os donos do binarismo

Foto: Ecos da Periferia
A quem de fato interessa esse binarismo político que vivemos hoje? Atualmente passamos por uma polarização intensa no Brasil que coloca no foco apenas apenas dois lados: o contra e o a favor, como na velha dinâmica da guerra fria que definia um dos lados do mundo: pró-EUA ou pró-URSS. Ou seja, o muro ainda está de pé, pelo menos no atual momento brasileiro quando observamos a limitação dos espectros. As redes sociais se apresentam como um referencial quando analisamos esse fenômeno que restringe o pensamento e as discussões. Ou você é PT ou PSDB: ou se é a favor ou contra o impeachment da Presidenta Dilma, Direitos Humanos para todos ou não, e por aí vai. 

O capitalismo, que de bobo não tem nada, percebeu que esse movimento reconfigura sua linha de atuação, principalmente, a partir do mercado de comunicação que vive em uma tendencia  cada vez maior de segmentação e diversidade por causa da internet, que de alguma forma perde força com esse binarismo concentrador.

Mas como isso de fato se dá, e de que forma esse processo ocorre? Bom, no Brasil aconteceu um movimento espontâneo a partir das redes sociais que culminou com as 'Jornadas de Junho' , na série de protestos convocados para questionar o modelo de desenvolvimento adotado pelo Brasil, a partir da discussão sobre a mobilidade urbana e também da realização dos grandes eventos como Copa do Mundo e Olimpíada. Esse fenômeno de ocupação das ruas repetiu um processo global iniciado a partir de mobilizações globais como a Primavera Árabe , Occupy  Wall Street e 15M que utilizaram a rede mundial de computadores para realizarem suas mobilizações, era a consolidação da tecnopolítica. A interação entre o manifestante e a tecnologia. Isso fez a mídia tradicional perder de alguma forma seu papel de catalisador na mobilização de eventos e pessoas.Ela não mais geraria o debate, na sua tradicional ação de ditar a agenda social. Os movimentos estavam pulverizados e capilares. Não haviam lideranças que pudessem responder ao que estava de fato acontecendo, era assim a horizontalidade redefinindo o papel das massas.


Então, já em 2014, essa movimentação nas redes sociais começa a ganhar uma nova configuração quando o chamado binarismo começa a ganhar espaço e ocupa o cerne das discussões. Esse espaço começa a ser apropriado inicialmente com o #NãoVaiTerCopa e o #VaiTerCopa, antes da realização da Copa do Mundo no Brasil. Passada a realização do torneio da FIFA, a pauta passa a ser ditada na rede pela grande mídia com as eleições presidenciais. Nesse momento há uma retomada do agendamento pela grande imprensa com o infortúnio do candidato Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo em Santos/SP. Posteriormente, a candidata a vice na chapa de Campos, Marina Silva assume o postulado principal na chapa, saudada de forma efusiva pelos jornalões. Por sua vez, o núcleo de comunicação da campanha governista, de Dilma Roussef, escolhe o inimigo: Marina Silva. Imediatamente uma campanha difamatória lançada pela internet mina à candidatura da ambientalista. Com isso, o candidato do PSDB, Aécio Neves, seria o novo queridinho midiático para derrubar o dragão da maldade petista, personificada na figura de Dilma. Essa era de fato a estratégia que o marketing político petista queria colocar em prática, pois acreditava que assim ser mais fácil derrotar mais uma vez uma candidatura tucana.

Assim, com o afunilamento do debate político nas eleições presidenciais, o "Fla x Flu" toma conta de vez das redes socais. É a luta do bem contra o mal, e consolidação do binarismo. O resto é história recente como sabemos. Dilma ganha no segundo turno por uma margem pequena de votos, e o outro lado que perdeu inicia o terceiro turno que prossegue até o momento.

A questão que pretendo abordar com esse texto é que o mercado de grande mídia no Brasil absorveu essa dinâmica no seu modelo de negócio. Um exemplo claro disso fica quando comparamos as linhas editoriais de dois veículos de uma mesma empresa, no caso os jornais do Rio de Janeiro 'O Globo' e o 'Extra'. O primeiro assume uma linha mais conservadora e alinhada contra o governo Dilma e embarca na histeria antigovernista bem evidente e personificada em articulistas como Merval Pereira. Já o Extra, de uma linha editorial popular, adota uma postura bem contundente na defesa dos direitos humanos, uma bandeira bastante combatida na atual lógica binária.

Isso deixa bem claro como o mercado faz a leitura dos fatos e acontecimentos e se apropria das dinâmicas, mantendo assim sua "prerrogativa" de pautar a sociedade. Se aproveita da falta de diversidade e conduz o debate na falta de opções, "congelando" as discussões. 










Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...