quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O peso da notícia


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O processo de produção jornalística sempre releva a novidade como um fato, e isso é condicionante para qualquer produção. A questão não se restringe somente em comparar o grau de importância de determinado fato/notícia em si. O problema é o tratamento dado para determinados acontecimentos, e hoje esse debate ultrapassa o limite das salas de redações e editorias, principalmente.

Nós só tivemos a dimensão do que ocorreu no vazamento da barragem da Samarco através das redes sociais. O que vimos inicialmente foi uma tentativa de se amenizar o fato, quando chegaram a divulgar que um possível abalo sísmico teria provocado o desastre.

A "teoria Beltame": a notícia tem grife e lugar

Vale sempre lembrar duas frases emblemáticas do Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Maria Beltrame, que definem bem o critério de importância dado para determinados fatos e notícias dados pela grande mídia, em especial no Rio de Janeiro: “um tiro na Zona Sul repercute mais do que na Zona Norte” e “É inadmissível um crime na Lagoa”. As duas afirmativas do secretário refletem bem os fatos que ocorreram no dia 13 de novembro com os atentados de Paris e Beirute, e porque não, a chacina de Messejana na grande Fortaleza ocorrido na madrugada do dia 12, na abordagem jornalística e suas respectivas repercussões. Nessa lógica,  o espaço e território agregam importância ao fato a ser noticiado.

O triste episódio de Paris tem relevância sim, mas o atentado de Beirute, ocorrido no mesmo dia merece sim uma cobertura jornalística aprofundada, pois lá morreram mais de 40 pessoas por obra do Estado Islâmico.

Aqui no Brasil, no dia 11 de novembro, 12 pessoas foram chacinadas na grande Fortaleza, e o que se viu na mídia? Praticamente nada. Não fosse a repercussão na internet essa execução cairia no esquecimento. A grande questão é se esse critério dos gatekeepers (editores) pode ainda prevalecer nos dias de hoje com o atual contexto da rede que a cada dia se consolida como um banco de pautas e fontes.

A banalização do mal e a mídia

Toda violência ou mal realizados pelo estado ou pelo ente privado contra a população são banalizados, infelizmente. Tudo de errado que acontece aqui no Brasil e tornado comum e banal, e aí não repercute mais na mídia do país. Um exemplo disso é o não aprofundamento sobre as mortes relacionadas por autos de resistência realizadas pela segurança pública do Rio de Janeiro através da Polícia Militar, que apresentam números crescentes já denunciados pela Anistia Internacional.

Outro exemplo atual, de como a rede começa afetar o processo do gatekeeper, e a divulgação do caso envolvendo o Secretário de Governo da Prefeitura do Rio de Janeiro e apresentado como pré-candidato à municipalidade carioca, Pedro Paulo Teixeira, acusado de agredir sua ex-companheira, Alexandra Marcondes Teixeira. O fato ocorrido há cinco anos só agora ganhou espaço no noticiário. Mas por que só agora depois de todo esse tempo o caso veio a tona, se Pedro Paulo há tempos ocupa o cargo de confiança do Prefeito Eduardo Paes. O jovem secretário em entrevista ainda minimizou o fato com a seguinte fala:

Quem é que não tem uma briga dentro de casa? Quem é que não tem um descontrole? Quem é que não exagera numa discussão? Nós somos um casal como qualquer outro. Às vezes exagera, fala coisas que não deve. Agora, não achar que isso possa ser uma coisa normal na nossa vida?”, banalizando à violência contra a mulher durante uma coletiva para justificar seus abusos.

Infelizmente, esse é mais um caso que revela o quanto uma informação sobre figuras e gestores públicos passam por filtros editorais. É obvio que o objetivo é preservá-los, conforme interesses pessoais, políticos e corporativos.

Não é só lama

O vazamento da barragem da Samarco/Vale em Mariana/MG, com rejeitos tóxicos é talvez o mais grave sinistro ambiental do Brasil, e até o momento não observamos um tratamento jornalístico adequado dentro da dimensão que o fato em si merece pela sua gravidade. E isso deve sim cobrado da nossa “valorosa” mídia. Imagino se o fato tivesse ocorrido nos EUA ou em país desenvolvido. Para corroborar o que digo relembro os desastres ambientais no Golfo do México na plataforma de petróleo da Chevron e no vazamento da central nuclear de Fukushima no Japão. Esses sinistros ocuparam boa parte do noticiário no Brasil.


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