sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

"O Estado brasileiro encontra-se sitiado"

Foto arquivo pessoal
Paulo Metri é ex-diretor do Clube de Engenharia, e, atualmente é Conselheiro Vitalício. É coautor do livro "Nem todo o petróleo é nosso", junto com o Brigadeiro Sérgio Ferolla. Além disso é autor de mais de 300 artigos sobre os temas: energia, planejamento estratégico, desenvolvimento tecnológico, entre outros. Pelo jornal do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro - Sindipetro-RJ, 'Surgente', conversei com Metri  sobre o atual momento e as possibilidades de recuperação da Petrobrás.


Depois de passar um ano turbulento como 2015, qual o cenário para Petrobrás em 2016?

Dependerá muito do que irá acontecer com o governo Dilma. Por exemplo, se este governo continuar tendo dificuldade para aprovar propostas no Congresso, poderá ser chantageado para a Petrobrás vender ativos relevantes.

A MP 703/2015, que regulamenta os acordos de leniência, é benéfica para o processo de recuperação da Petrobrás?

A Petrobrás não foi uma empresa corruptora, nem uma empresa corrupta. A Petrobrás teve o azar de ter, no seu quadro, diretores e funcionários de alto escalão corruptos, que roubaram seu patrimônio e, portanto, devem pagar pelos seus crimes. Contudo, os acordos de leniência a impactam porque ela poderá continuar com as empresas que já vinham atuando, obviamente em novas bases. Ela não precisará fechar novos contratos para as mesmas obras em andamento, com outras empresas, provavelmente estrangeiras.

O projeto do Senador Roberto Requião, baseado em um grande aporte do BNDES, é a solução ideal para a saída da crise da Petrobrás?

A proposta do Senador Requião, político compromissado com nossa sociedade e com visão estratégica, prioriza não haver perda de patrimônio da sociedade, patrimônio este que, ao começar a produzir, pagará com folga o aporte financeiro obtido. O BNDES tem dado suporte para subsidiárias de empresas estrangeiras, então, com maior razão, pode aportar recursos para a Petrobrás.

Muito tem se falado que o Brasil ainda não explora as possibilidades reais que os Brics oferecem em termos de parcerias e financiamentos, e que isso poderia ser uma alternativa para reconstrução da Petrobrás, você concorda com isso?

As oportunidades oferecidas pelos BRICS são as oportunidades oferecidas pelos cinco países componentes. A China tem interesse, sim, em fechar acordos de pré-venda de petróleo para o médio prazo, o que é interessante para o Brasil. Aliás, a Petrobrás já recebeu 10 bilhões de dólares graças a um acordo deste tipo com a China. O petróleo, que paga no futuro o empréstimo, é precificado usando-se a cotação do barril da época. A Índia pode vir a ter interesse também em um contrato de pré-venda de petróleo. A Rússia não tem o mínimo interesse, pois é exportadora de petróleo.

Existem alternativas de apoio à Petrobrás além dessas mencionadas?

Sim, o governo brasileiro pode vender uma parcela pequena das reservas externas brasileiras, que estão no nosso Fundo Soberano, aplicadas em papéis do governo americano, rendendo praticamente nada. Em seguida, ele internaliza esta pequena parcela, transformando-a de dólares em reais. Depois, o governo faz uma chamada aos acionistas da Petrobrás para aumento do seu capital e utiliza os recursos oriundos do Fundo Soberano para integralizar a parcela da União neste aumento de capital. Com estes recursos no caixa da Petrobrás, ela paga suas dívidas, saindo do aperto financeiro. Esta proposta tem o benefício extra dos recursos colocados na Petrobrás serem mais bem remunerados do que quando eram papéis do governo americano.

Como você avalia esse processo de desmonte da empresa quando ela vende subsidiárias importantes como a Gaspetro?

O que está ocorrendo é a submissão do Estado brasileiro aos interesses das grandes corporações externas, em conluio com seus países de origem e com a participação de prepostos do capital estrangeiro no nosso país. O Estado brasileiro encontra-se sitiado. Nossa mídia tradicional (O Globo, Estadão, Folha, Veja, Época, isto é, TV Globo, demais canais abertos e outros), é o principal agente da manipulação da sociedade brasileira e, como consequência, da dominação do Estado brasileiro. Outros agentes da dominação da nossa sociedade são os políticos conservadores.

A queda do preço do Petróleo ajuda ou atrapalha a Petrobrás?

Ajuda em alguns pontos e prejudica em outros. Por exemplo, a Petrobrás tem que importar parcelas de diesel e gasolina para suprir as necessidades brasileiras.Neste momento, como o preço destes derivados acompanham o preço do barril, é bom o fato da cotação do barril estar baixa. Outro exemplo: com o preço do barril baixo, nenhuma empresa quer expandir sua produção, a menos que tenha segurança que irá encontrar um petróleo muito barato, o que é impossível, hoje. Assim, diminuiu a procura por aluguel de sondas, levantamentos sísmicos etc e, com isso, houve o barateamento de todos os bens e serviços da cadeia produtiva do petróleo. A Petrobrás conseguiu muita redução nos valores dos contratos já assinados de fornecimento de bens e serviços, alegando que, pelos preços antigos, não poderia continuar.
Por outro lado, se precisar exportar alguma parcela da produção de petróleo, porque a produção nacional não se adequa exatamente às necessidades das nossas refinarias, irá vender barato.
Agora, a Petrobrás sofreu um grande acréscimo na sua dívida devido à maior parte dela estar expressa em dólar, que se valorizou muito em relação ao real.

Você sempre fala que uma governança participativa seria um antidoto contra a corrupção em órgãos e empresas do Estado. Explique, por favor, como isso poderia tornar transparentes os processos de investimentos de uma empresa como a Petrobrás?

Parece-me razoável acreditar que o debate sobre os investimentos da Petrobrás a serem realizados, antes do início da execução dos projetos, com entidades da sociedade, significará maior segurança contra desvios futuros. Estas entidades, sabendo do que se trata cada projeto, serão fiscais naturais das suas execuções.

Fonte: Surgente 1371


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