sexta-feira, 4 de março de 2016

A cultura carioca e suas origens na Região Portuária do Rio

Luiz Antonio Simas fala sobre a cultura carioca
O Projeto Viajantes do Território - uma Cartografia Colaborativa da Região Portuária do Rio de Janeiro, recebeu na tarde desta sexta-feira (4), no Museu do Rio MAR, Centro do Rio, o Historiador Luiz Antonio Simas, que fez uma palestra sobre a cultura popular na Região do Porto do Rio.

Na fala, Simas fez uma exposição a partir do conceito que chama de ‘história reflexiva’ para que se possa entender como se deu a formação cultural da cidade do Rio de Janeiro.  O historiador citou o cronista Marques Rebelo para explicar o conceito, reafirmando a ideia de que uma cidade é feita por várias cidades, um território que está em disputa permanente. Ou seja, a lógica das identidades territoriais formadas com as experiências de enfrentamento em meio à diversidade.

“O Rio foi o porto a receber o maior fluxo de escravos negros no período da escravidão. Essa foi uma experiência visceral para a cidade, pois aqui chegam pessoas que queriam simplesmente sobreviver após um processo brutal e violento em que foram retirados de suas casas, obrigados e abandonar suas referências e famílias no continente africano. Aqui elas foram obrigadas a reconstruir sua vida, a se reinventar, por isso o negro foi fundamental na formação da cultural do Rio” – disse o pesquisador autor de livros como ‘Pedrinhas Miúdas’ e ‘Dicionário Social do Samba’, entre outros que abordam o universo da cultura popular carioca.

O historiador afirmou que a Região Portuária do Rio é o território onde essa reinvenção se fez mais presente no aspecto cultural como, por exemplo, na formação da religiosidade, a partir da base afro-ameríndia com a chamada ‘macumba carioca’, casas de angu e terreiros que acabaram se configurando como centros de construção associativa de laços e identidade cultural, citando espaços da região como a Pedra do Sal local onde eram realizados assentamentos de santo.

“A exclusão social no Brasil foi um projeto de Estado”

Mas esse processo civilizatório tão espontâneo sofre uma tentativa de bloqueio com o surgimento da República que tenta implementar um padrão europeu de sociedade. O Rio de Janeiro precisava ser francês. A urbanização da cidade em 1900, pelo então Prefeito Pereira Passos, é uma prova disso com uma tentativa de reprodução da chamada “Belle époque” carioca inspirada na cidade luz - Paris. Além da derrubada de morros e criação de longas avenidas, como a Rio Branco, antiga Avenida Central.

Na parte social, a “Lei da Vadiagem” é a maior representação dessa nova cidade europeia e branca que tentava substituir uma cidade diversa e caótica. A lei é criada para coibir a cultura do batuque, capoeira e qualquer tipo de manifestação do Rio mestiço e negro, já consolidado no entorno do porto.

“Há no Rio de Janeiro uma cultura da informalidade absolutamente arraigada ao cotidiano do carioca. Essa cultura se estabelece entre as frestas deixadas por um poder público que historicamente se preocupou mais em reprimir do que em incluir. A exclusão social no Brasil foi um projeto de Estado. A República fechou as portas, após a abolição da escravatura no final do Império, a qualquer projeto de integração dos descendentes de escravizados no mercado formal de trabalho e no exercício pleno da cidadania” – completou Simas.

Sobre o Viajantes do Território


O projeto iniciado em 2014, pelo Gestor Cultural Egeu Laus, é uma incubadora que atua no apoio de inciativas culturais que possam trazer benefícios para os moradores da Região Portuária do Rio. O coletivo colaborativo realiza cursos e desenvolve metodologias próprias de tecnologia social que possam ajudar a construir novas formas de produção sustentável baseadas no compartilhamento e colaboração. São empreendimentos socioculturais, ideias e projetos ligados à arte, cultura e sustentabilidade.

O Viajantes do Território recebe inscrições até o dia 25 de março de moradores e frequentadores da região do porto através da Escola do Olhar, uma inciativa do Museu de Arte do Rio o Mar.

Para saber mais sobre o projeto acesse facebook.com/viajantesdoterritorio



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