sexta-feira, 11 de março de 2016

O homem que amava os cachorros - uma breve resenha



Apesar de ser um romance histórico o livro ' o homem que amava os cachorros' de autoria do Jornalista e escritor cubano, Leonardo Padura nos revela contextos históricos pouco aprofundados e nos leva a uma importante reflexão sobre as lutas e erros da esquerda no Século XX. O título é uma alusão à afinidade que os personagens centrais tinham por cães

A história se desenvolve a partir da trajetória de dois personagens marcantes como Leon Trotsky, um dos líderes da Revolução Bolchevique de 1917 na Rússia, e de seu assassino Ramón Mercader, militante comunista e catalão que lutou na guerra civil espanhola contra o fascismo. Na obra ainda existe um terceiro personagem cubano. Ivan é um aspirante a escritor que atua como veterinário em Havana, que e a partir de um encontro enigmático com um homem que passeava com seus dois cães da raça borzoi, numa praia em Cuba já sob o poder de Fidel nos anos 1970, com quem desenvolve uma estranha amizade, e que lhe fornece a narrativa de crimes reveladores que marcariam a história.   

Com esses dois personagens centrais, o livro retrata a trajetória de perseguições e exílios impostos pelo sucessor de Lenin, Joseph Stalin, o "timoneiro dos povos" na sua sanha de poder que elegeu como o inimigo número 1, da então União Soviética, Trotsky, o criador do exército vermelho e conceituador da chamada revolução internacionalista permanente. Ao mesmo tempo é apresentada uma narrativa sobre a vida do militante espanhol (Mercader) que foi cooptado pela policia secreta da URSS, a KGB,  para eliminar o fantasma que atormentava Stalin. 

A partir de sua condução ao poder soviético Stalin, pelo terror e força, reescreve de forma tirânica as linhas da concretização da utopia do socialismo real em seu processo de implantação na antiga União Soviética. Após a morte do pai da revolução comunista, Lenin, os dirigentes soviéticos escolhem Stalin em detrimento de Trotsky para continuar o legado da revolução proletária.

O livro de Padura conta o sofrimento de Trotsky e de sua família na fuga da ira da máquina stalinista e da demonização da imagem de um dos baluartes da revolução de outubro. Os exílios na Turquia, França, Noruega e México revelam a dor e lembranças de um Trotsky abalado pelas perdas políticas e familiares ao longo de censuras, perseguições e atentados sofridos no desterro imposto pelo estado soviético. É espantoso como Stalin aos poucos cauteriza antigos camaradas e aliados em prol de seu projeto de poder, e se transforma praticamente em um czar através de julgamentos armados e fuzilamentos, personificando-se como um próprio “Deus vermelho”.

Nos anos 1930, com a consolidação do fascismo na Alemanha e Itália, o jogo de manipulações políticas fica bem claro durante a Guerra Civil da Espanha (1936/39), quando a União Soviética resolver apoiar os republicanos (bloco de esquerda) contra os direitistas de Franco apoiados por Hitler e Mussolini. Temendo a influência dos trotskistas e anarquistas, o Partido Comunista Espanhol começa a boicotar e promover divisões na frente de esquerda sob orientação de Moscou para manter-se no comando da república. O livro narra como Stalin surrupiou o ouro espanhol em troca de apoio logístico e de armas. Nesse imbróglio Ramon Mercader é recrutado pela KGB para eliminar Leon Trotsky já em seu exílio no México. Preparado sob intenso treinamento militar e de resistência psicológica, Mercader se transforma em um playboy belga, Jaques Monard, que cumprirá sua missão pelo proletariado, ao praticar um macabro assassinato em prol da continuidade do projeto de poder de Stalin.

Talvez aquele golpe de picareta fosse não só um golpe mortal na cabeça de Trotsky, mas também, e, principalmente, na utopia socialista. A morte do desterrado significou que o ideário de Stalin fundamentado na aplicação do terror e na excessiva burocratização do estado soviético promoveria o fim do sonho, ocorrido anos depois com a queda do muro de Berlin e com o fim da própria União Soviética nos 1990.


Enfim, o livro ‘O homem que amava os cachorros’ é uma bela obra de contexto histórico que revela histórias antes tão estranhas e macabras que foram construídas a partir da manipulação de utopias e sonhos tomados em nome do culto a personalidade de uma figura tão controversa como Stalin.
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