quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Esquerda junta os cacos ainda na ressaca eleitoral

Após o golpe parlamentar que consolidou Michel Temer na Presidência da República, o Brasil vê a confirmação de uma onda conservadora e reacionária depois de anunciados os resultados das eleições municipais de dois de outubro.

O que se constatou foi a eleição de uma maioria de prefeitos e vereadores identificados com o fisiologismo que ocupa o Palácio do Planalto.  Ainda sob a “ressaca” do primeiro turno eleitoral, a esquerda brasileira junta os cacos, procurando entender  e digerir o atual contexto político nacional.

O Brasil, inerte, observa a espoliação de suas riquezas como a recente aprovação do PL 4567/16, de autoria do senador José Serra (PSDB-SP) e atual ministro de Relações Exteriores de Michel Temer, que retirou a presença obrigatória da Petrobrás em pelo menos 30% dos campos de produção do pré-sal.

Renato Rovai
A Agência Petroleira de Notícias conversou com o jornalista, blogueiro, Renato Rovai, editor chefe da Revista Fórum, professor da Faculdade Cásper Libero em São Paulo, mestre em Comunicação da USP e doutorando da Universidade do ABC.  Rovai acredita que o campo progressista, em especial o Partido dos Trabalhadores (PT), foi o grande castigado no recente processo eleitoral.

APN: Que avaliação você faz desse primeiro turno de eleições municipais?

Renato Rovai: O Brasil acabou vivendo uma eleição movida por certa indignação, em meio a uma crise que se estende desde a eleição de 2014. Essa crise política se tornou uma crise econômica que também podia ser vivida de outra forma se não fosse a briga política. De alguma forma,  a população decidiu dar um basta ou pelo menos tentar dar um basta, punindo um dos lados da disputa. O campo progressista, em especial o PT, foi o grande castigado nesse processo eleitoral.

APN: O resultado da eleição pode ter influído na votação da PL 4567/16, que retira da Petrobrás o direito de ser a operadora única do pré-sal, aprovado na última quarta-feira (5)?  
Renato Rovai: Eu não tenho dúvida nenhuma de que influiu e vai influir em uma série de outras coisas também. Como vencedores das eleições, eles se sentem à vontade para pôr em prática aquilo que eles defendem. Em São Paulo, o João Dória foi eleito, sobretudo, pelo voto de protesto contra a classe política. As pessoas não sabem o que ele vai fazer no governo. Agora começam a surgir às surpresas, do tipo:  “Nossa, ele vai privatizar o Ibirapuera?” Pois ele disse isso na campanha, mas o projeto não foi debatido. No caso, um segundo turno permitiria o debate necessário para esclarecer o eleitor.


APN: Você acredita que exista um imobilismo, uma inércia dos movimentos sociais e sindicais, em relação ao que está acontecendo hoje no Brasil?

Renato Rovai: Eu não acho que esteja havendo imobilismo do lado social. O que aconteceu foi algo muito violento. Nós sofremos um golpe. Temos sido fortemente dinamitados pela mídia e por setores da elite.  O governo liderado pela Presidenta Dilma, quando foi golpeado, não teve habilidade para fortalecer a sua base,  ao contrário. Tentou fazer acordos de corte de direitos e adotou uma política ortodoxa na economia. A gente não pode esquecer que o Joaquim Levi foi nomeado ministro da Fazenda, depois de uma eleição ganha pela esquerda. Nessa, Dilma acabou se enfraquecendo.

APN: É possível projetar um cenário diante a atual situação, inclusive para 2018?

Renato Rovai: Ainda é muito cedo para discutir 2018, e qualquer projeção de cenário, nesse momento, é como jogar búzios e tentar adivinhar o que vai acontecer. Nada contra os búzios ou as pessoas que acreditam, mas como esse ateu que aqui vos fala não acredita em nada disso, na minha perspectiva é quase a mesma coisa. Eu considero que vai ser necessário verificar como o governo Temer vai operar nos próximos meses. Ele pode até se tornar um governo que termine esse mandato e consiga chegar num patamar razoável de aceitação popular, mesmo fazendo muitas privatizações e arrecadando dinheiro. A partir disso pode se segurar por um período de tempo ou desmoronar, correndo o risco de vivermos outra  grande crise política. Ou pode até  ocorrer  uma eleição indireta, via Congresso, com o objetivo de levar um tucano à Presidência da República. Tudo é possível.


André Lobão é jornalista da Agência Petroleira de Notícias (APN) e do Sindipetro-RJ

Reprodução APN



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